Desde pequeno


Um dos sacramentos mais importantes é o batismo. Há muito eu penso em dedicar-me à pastoral que cuida deste rito.

O batismo é o primeiro sacramento recebido por quem é católico. É a iniciação na fé. Através dele, um bebê é apresentado à comunidade e seus pais e padrinhos assumem o compromisso de orientá-lo nos princípios morais e religiosos. Batiza-se também a pessoa jovem, adulta ou idosa que deseja abraçar a fé em Cristo Jesus.
Entretanto, independente da idade do batizado, a cerimônia não o transforma em um cristão pleno. É preciso estudo, acompanhamento, vivência na fé, observação dos mandamentos, etc.
Justamente porque o novo cristão não tem embasamento, não tem uma fé enraizada é que deve-se dar toda a atenção a ele nesta etapa.
A falta de assistência aos novos membros que ingressam na comunidade através do batismo (próprio ou dos filhos) durante o curso de preparação e depois da cerimônia é uma das causas da evasão de católicos do seio da Igreja, bem como de uma posterior adoção de preceitos protestantes ou não cristãos. É como “semear no meio das pedras”.
Esta falha é perceptível na negligência em que grande parte dos ditos católicos se encontra. Falta uma exortação à leitura e estudo da bíblia, da história da Igreja Católica, dos sacramentos.

No caso das crianças, infelizmente é comum nesses dias fazer do batismo um réles pretexto para se fazer um “churrasco de domingo”. Muitos pais que não professam a fé católica julgam “bonito” submeter seus filhos ao batismo na igreja. Afinal, é uma forma de socializar! Cria-se ou estreita-se vínculos afetivos com cerca 3 ou 4 pessoas (os padrinhos), aumenta-se a probabilidade de a criança ganhar presente, etc. Porém, além da frequente ocorrência de nomear-se padrinhos não católicos – já testemunho a respeito – para este posto tão importante, não raros também são os casos em que os pais chegam a cobrar certa dedicação e presença do filho na igreja sem eles mesmos praticarem e viverem a fé católica.

Eu fui nomeado padrinho de consagração de um rapazinho certa vez. A família da mãe não era católica e a do pai,  protestante. Ambos não comungavam das respectivas crenças. O padrinho de batismo do menino, além de praticar uma religião espiritualista (chamavam de macumba, não sei precisar o que era) é gay. Não digo que exista uma tendência de ele se tornar uma ou outra coisa. Mas sem dúvida, inexistirá um apoio ou direcionamento para a fé católica naquele lar. Eu já não convivo com eles. Não cabia, à época, buscar uma aplicação destes conceitos aqui descritos.

Sou a favor de um maior rigor na formação religiosa. De uma “fiscalização” mais rigorosa dos proponentes ao batismo. De que se exija que os padrinhos sejam cristãos católicos, de papel (certidões de batismo, comunhão E crisma) e verdade, conforme o item 572 do Catecismo Maior de São Pio X:

572) Que pessoas se devem escolher para padrinhos e madrinhas?
Devem escolher-se para padrinhos e madrinhas pessoas católicas e de bons costumes, e
observantes das leis da Igreja.

Recomendo, a propósito, a leitura do texto integral. Está disponível aqui (pdf). A parte que trata do sacramento do Batismo e do sacramento complementar do Crisma ou Confirmação é a quarta parte, na dupla de capítulos II e III.

E estas exigências poderia estender-se aos padrinhos de casamento também.

A Igreja precisa, hoje, que se indique o que é bom, mas também que se aponte com caridade e amor o que é mau. Que se denuncie as armadilhas de uma religiosidade permissiva, relativista. E este posicionamento deve figurar desde o início do contato de uma pessoa com o cristianismo. Deve-se defender que os sacramentos não são “conveniências” ou “atividades recreativas” a satisfazer a vontade dos propostos fiéis. Os sacramentos são instrumentos legítimos da transmissão da graça de Deus. E isto exige MUITA seriedade.

A propósito, o batismo é um ritual substitutivo à circuncisão judaica. Esse ritual cirúrgico é a cerimônia tradicional de apresentação da criança à sua comunidade judaica. Analogamente, o batismo de crianças é a apresentação à comunidade católica.
Analogamente também, perceba que a criança judia não tem consciência do que se lhe faz, sendo responsabilidade de seus pais educá-lo nesta tradição.

Novamente, vejamos o que é ensinado pela Igreja, no catecismo de São Pio X:

559) Quando se devem levar à Igreja as crianças para serem batizadas?
As crianças devem ser levadas à Igreja para serem batizadas, o mais cedo possível.

560) Por que se deve ter tanta solicitude em levar as crianças ao Batismo?
Deve-se ter suma solicitude em levar a batizar as crianças, porque elas pela sua tenra
idade estão expostas a muitos perigos de morrer, e não podem salvar-se sem o Batismo.

Um amigo protestante argumentou contra a realização do batismo de crianças. A oposição aos sacramentos é um dos principais pontos de discordância dos protestantes.
A alegação é que a criança não tem consciência do que seja “aceitar Jesus”. O pensamento protestante funda-se na condição primitiva do batismo praticado por Jesus e os seus discípulos que era por ocasião da conversão daquele povo. Tentam transferir para os dias de hoje, alegando ainda que é preciso que a pessoa manifeste por si própria, totalmente consciente, o desejo de abraçar a fé. Ora, fosse desnecessária a intervenção de outrem, que utilidade teria a pregação? Por que os discípulos foram enviados por Jesus a “ensinar a todas as nações”? (cf Mt 28, 19-20). Não seria simplesmente o caso de esperar que Deus tocasse o coração dos gentios e os fizesse procurá-los?

Analisemos a palavra do próprio Cristo em outro momento: “Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham. Em verdade vos digo: todo o que não receber o Reino de Deus com a mentalidade de uma criança, nele não entrará” (cf Mc 10, 14b-15). A edição Ave Maria da Bíblia Sagrada traz o seguinte comentário ao versículo 15 da citação acima:

Receber o Reino significa receber Cristo, o Evangelho, a graça. Urge recebê-lo com a simplicidade de uma criança para que se possa entrar nele.

Note que a simplicidade de uma criança não é virtude exclusiva delas, tanto que Cristo orienta os demais a se assemelharem a elas. Não obstante, a infância é época excelente para se aprender, para se formar uma consciência reta e santa. É importantíssimo que alcancemos os indivíduos antes que as más influências do mundo, a ação do demônio, os afete e endureça.

Cito o caso que consta na passagem do evangelho que trata do divórcio: Mc 10, 1-12. Jesus mostra que Moisés promulgou o divórcio “por causa da dureza de coração” dos judeus. Ou seja, o divórcio não é bom. Mas foi uma medida necessária adotada para evitar erros mais graves, como o adultério. Da mesma forma, o batismo de crianças é um excelente instrumento de evangelização, pois incentiva a vivência na fé a toda uma casa, toda uma família (cf 1Cor 1, 16).

Está claro ser desejo Dele que as crianças participem da Sua salvação. Porventura teria dito Ele: “Detenham as crianças até que se complete o tempo necessário para o seu batismo”? Ou ainda, teria S. Paulo se recusado a batizar alguma criança (caso houvesse) da casa de Estéfanas? Teria ele esperado 12 anos (em média) p/batizá-las?

Ironicamente, alguns ramos protestantes discordam do batismo de bebês e crianças, enquanto outros promovem crianças “pastoras”:



Há muitos outros links de absurdos como estes.

Meu amigo protestante também argumentou que a Igreja Católica durante um tempo impôs a aceitação do catolicismo pela espada. Assumir este fato como absoluto é tão irresponsável quanto assumir absolutamente que a inquisição queimava qualquer um por bruxaria simplesmente pela oposição ideológica à fé, para silenciá-los.
Não podemos desconsiderar o contexto geográfico e histórico da oposição à Igreja por povos anticristãos militares, como os islâmicos. Não havia somente povos pacíficos que pediam educadamente que os cristãos pregassem em “outra freguesia”. Havia aqueles que os matavam para silenciá-los.
Portanto, a educação cristã promovida pelo batismo, em longo prazo, contribuiu (e ainda contribui) para a construção de uma geração menos hostil e capaz de aceitar a Deus sem a oposição armada (e sem que a resistência armada cristã seja também necessária).

Por fim, afirmo que a conduta humana deve ser firmar-se nos princípios cristãos, nos pilares da fé. A Revelação, transmitida a nós pelo Magistério da Igreja, por sua Tradição, nos fornece todas as diretrizes morais para vivermos plenamente a vida, com santidade e paz. E sendo a família a base de formação do ser humano, de seu caráter, de seus valores, é dever dos pais cuidar da educação dos filhos, desde a infância, na doutrina cristã.
Quanto antes a Verdade for-lhes transmitida, tanto melhor crescerão, rumo a Deus.

Paz e Bem
O Andarilho


Veja também:

Batismo de pimpolhos – fundamentos na Bíblia e na Tradição

3 pensamentos sobre “Desde pequeno

  1. Salve, irmão!

    Parabéns pela postagem! É uma autêntica catequese sobre o Batismo. E – infelizmente! – melhor que a de muitos padres e catequistas que existem hoje nas Igrejas…

    É absolutamente necessário reforçar que devem ser escolhidos, para padrinhos de Batismo, pessoas com plenas condições e com vontade inabalável de tornar aquela criança um bom cristão. Aquelas pessoas que são consideradas “carolas” ou “beatos” são, neste caso a melhor opção. Pois a salvação da alma é mais importante do que um presentinho todo ano…

    O compromisso de educar a criança na religião cristã é até mesmo anterior ao Batismo da criança: os pais assumem esse compromisso no dia do casamento, perante o padre. Infelizmente muitos não estão nem prestando atenção neste momento…

    A estória de que “a Igreja Católica durante um tempo impôs a aceitação do catolicismo pela espada”, se fosse verdade, realmente teríamos que considerar o contexto geográfico e histórico. Mas o fato é que isto é simplesmente mentira. Há registro histórico de apenas uma religião que convertia (e ainda converte) pela espada: o Islamismo. Todas as Cruzadas que foram bem sucedidas na verdade foram atos de defesa, por parte da Igreja católica, em favor dos lugares santos e dos peregrinos cristãos destes lugares. As Cruzadas que fugiam deste ideal foram castigadas por Deus e, como a história mostra, foram mal-sucedidas. Mas mesmo as Cruzadas que não cumpriam os requisitos do Princípio da Guerra Justa devem ser consideradas apenas abusos, que qualquer ser humano está sujeito a cometer.

    Pax et Salutis

  2. “A Igreja precisa, hoje, que se indique o que é bom, mas também que se aponte com caridade e amor o que é mau”. Hoje em dia, falar uma coisa dessas “pega mal”, é politicamente incorreto, lamentavelmente. Pode chegar lá um padrinho traveco que vc tem que achar lindo, senão “tá julgando o irmão”, está sendo “intolerante”.

    A correção fraterna, para muitos católicos hj, é vista como algo mau, como sinal de falta de caridade. Já foi o tempo em que a maioria do nosso povo vibrava diante do empenho dos grandes teólogos e santos no combate aos desvios e heresias. Entretanto, essa filosofia libertina nada tem a ver com a Tradição e com as Escrituras. Amar tb é corrigir, ainda que doa.

    Quanto à questão da fiscalização a respeito dos padrinhos, não sei, tenho minhas dúvidas se isso poderá ser eficaz. Até porque há uma multidão de pessoas que fizeram Crisma e estão pra lá de afastadas da fé. Mas concordo que alguma coisa deve ser feita, como está não dá pra ficar.

    • Ora, se alguém chegar com um padrinho travesti, os coordenadores do curso de batismo devem chamar os pais/responsáveis em particular e avisar que não pode. Melhor até seria se pudessem encaminhar o travesti para o pároco, para que recebesse orientações corretivas.

      Não devemos ter medo do “politicamente correto”, que é exatamente o que há de mais incorreto em matéria de moral.

      Os sacramentos só deixarão de ser “desculpas para se fazer churrasco” se nós, igreja, firmarmos os pés e exigirmos o devido respeito que eles merecem.

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