De trás pra frente


O Vereador Carlos Bolsonaro, no blog da família propõe que se mobilizem medidas de “planejamento familiar” que proporcionem acesso à medidas de controle populacional e “paternidade responsável” – através de vasectomia e laqueadura – à população de moradores de rua da cidade do Rio de Janeiro.

Antes de transcorrer sobre a proposta dele, quero salientar que tenho nutrido respeito à família Bolsonaro por sua luta pela conservação dos valores morais e da importância da família (a tradicional, não as inventadas pelos gays) para o desenvolvimento próspero e sadio da sociedade.
E, principalmente, registrar minha satisfação com a ausência de referência à pratica criminosa e hedionda do aborto na proposta dele. Parabéns!

Muito bem.
Eu vejo que esta preocupação tende a tratar o problema da população de rua de trás pra frente.
Visa reduzir as chances de “casais de rua” reproduzirem-se, orientando-os sobre os problemas recorrentes da falta de planejamento familiar, mas não sugere mecanismos para erradicar a “produção” de moradores de rua adultos.
Usando uma visão panorâmica, eu diria que a medida significa “tapar o sol com a peneira”; simbolicamente seria como esforçar-se por secar a pia ao invés de fechar a torneira.

Agora: que discernimento será que um casal morador de rua (ainda nem considerando a real pluralidade deles) teria p/receber e aplicar uma orientação sobre “paternidade responsável”? Pela sua condição financeira de mendicância, que impede o devido tratamento pós-operatório dos métodos irreversíveis propostos, o casal (ou ainda os indivíduos, caso focados em separado também) sem dúvida reivindicará antes auxílio financeiro para matar-lhe a fome, do que assistência médico-cirúrgica para prevení-lo de reproduzir.

Consideremos por um momento, aqueles moradores de rua que ainda conservam a sanidade. Eles poderiam, com um mínimo de esforço mental:
1) recusar-se a ser submetido à cirurgia, pois uma vez estéril, extingue-se uma das suas poucas chances: filhos (como que operários) p/”vender bala” ou “praticar malabarismo”;
2) questionar o agente público sobre a prioridade que deve ser dada a ele(a). Afinal, por que não dar trabalho, antes de pensar em operar seja lá por qual motivo?

Considerando agora que consiga-se esterelizar boa parte dos casais de rua. Como eles conseguiriam reverter seu status social? Não há, a princípio, planejamento neste sentido, na estrada que o Ver. Bolsonaro deseja pavimentar. Gostaria de saber o que ele pensa a este respeito.

Ao ler o artigo do blog deles, quis deixar o seguinte comentário (mas falhei miseravelmente por algum desentendimento meu com o blogspot/blogger):

E qual o risco de alguém (político) unir uma possível aprovação da proposta da PEC 584/02 ao recente plano de manter os recolhidos das ruas em abrigos (do governo do estado do RJ) até a identificação dos familiares, e/ou submissão à programa de tratamento? Não acha que exista o risco de ocorrer uma esterilização em massa dos recolhidos?

Novamente, gostaria de algum comentário dele sobre esta suspeita. De antemão, reafirmo (na esperança de já ter ficado claro) que sou contra este plano de esterilização, ainda que apenas sugerida.

Seguindo por este caminho, não posso furtar-me de advogar pela liberdade reprodutiva inerente à dignidade humana. Afinal, entendo e afirmo que mais importante que efetivamente conter o aumento da população de rua, deve ser o esforço de reintegração destas pessoas à sociedade regular, dando-lhes as mesmas condições de cidadania das quais desfrutamos tu e eu e os Bolsonaro. E, uma vez de volta à condição de cidadãos estruturados, aqueles indivíduos merecem toda a liberdade, reprodutiva inclusive.

Partindo para a consideração da “real pluralidade” da população de rua mencionada acima, não se pode ignorar:

I) o número considerável de moradores de rua já privados da sanidade, para os quais as propostas medidas cirúrgicas de reprodução tornam-se secundárias ou terciárias, talvez até mais do que para os sãos.

Para estes, faz-se necessário um programa de acolhimento e assistência psiquiátrica que efetivamente os tire das ruas.

II) o número considerável de crianças, sobretudo em idade NÃO-reprodutiva que se espalha pelas ruas da cidade. Para elas, o recente plano de internação compulsória lançado pela Prefeitura em conjunto com o Governo do Estado é sem dúvida o mais indicado.

Este plano de internação poderia, inclusive, ser oferecido (com a mesma “insistência” que fosse praticada pela Indicação N. 9103/2011 que consta no blog dos Bolsonaro)

Aproveitarei a frase final do artigo deles e parafrasearei:
O combate à violência e à miséria depende de um esforço mega-abrangente da política de Segurança Pública, impedindo a expulsão de moradores das áreas comandadas pelo tráfico e demais regimes criminosos (as favelas), por exemplo; de uma política de Educação pública renovada (com as possíveis medidas de curto-prazo: implementação de detectores de metal nas escolas da rede pública e apoio à deposição da parte principal do corpo do MEC, a começar pelo Min. Fernando Haddad); ampliação (se é que ainda existem) dos programas de habitação governamental (como Favela Bairro); manutenção (no sentido de continuidade) da assitência ao corpo de Policiais Militares e Civis, através de incentivos como a bonificação por serviço prestado em dias de folga, que em médio-prazo resgatará a dignidade e a honradez dos nossos agentes de segurança.
Só pra citar algumas pontos de ação…

Um pensamento sobre “De trás pra frente

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s