Respostas anônimas


Saudações!

Hoje trago respostas que escrevi a pedido de uma colega, que por e-mail enviou o link para o vídeo abaixo, onde uma moça estrangeira questiona “os crentes” tentando abalar sua fé:

Respondo às perguntas, colocando o enunciado de maneira resumida:

Pergunta 1) Supondo que você tenha familiares e amigos muito queridos que não compartilham da crença cristã (ela cita tb muçulmana, desnecessariamente), segundo a própria religião cristã, eles irão para o Inferno ao morrer. Como um cristão poderia ficar com a “consciência limpa” ao pensar que enquanto ele está no “paraíso”, aqueles que ele amava em vida estão sofrendo tormentos?

Resposta 1) Primeiro é preciso compreender que a salvação de cada alma é um processo particular, que depende principalmente da fé e esforço do interessado.
Vejamos: se algum amigo ou parente de um cristão opta por não acreditar em Deus, conscientemente esta pessoa decide que não acredita  no inferno, e com isso provavelmente não se importará com qualquer “tormento horrendo” que possa sofrer após a morte.
É dever de todo cristão evangelizar, difundir a mensagem salvífica de Deus, e conduzir o próximo à Cristo, único caminho que conduz a Deus.
Como o próprio Jesus nos disse em Mt 10, 34-37 (também cf. Lc 12, 51-53):

34 “Não penseis que vim trazer paz à terra! Não vim trazer paz, mas sim, a espada. 35 De fato, eu vim pôr oposição entre o filho e seu pai, a filha e sua mãe, a nora e sua sogra; 36 e os inimigos serão os próprios familiares. 37 Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim.”

Portanto, dizendo isso, o Senhor Jesus previu que haveriam divisões até mesmo dentro das famílias por causa do Seu Nome. Podemos ter grande amor familiar, mas quantas vezes familiares influenciam-se uns aos outros a praticarem crimes dos mais diversos tipos? O amor a Deus tem que ser, de fato, maior que qualquer amor, pois Ele é o Bem Supremo. É Deus quem nos ensina a sermos pessoas dignas, corretas e que, com isso, amam ao próximo.

Agora, e se invertermos o ponto de vista da pergunta? Por acaso não seria um tremendo egoísmo da parte dos parentes achar que a condenação que eles escolheram – por não acreditarem em Deus DELIBERADAMENTE – deveria ser motivo de remorso dos seus entes queridos cristãos?
Uma vez admitido que o inferno existe, e que a condenação da alma é uma possibilidade real, o que parece mais justo: desejar o benefício daqueles que se esforçaram para viver retamente, ou desejar que eles se danem junto com os que “não estavam nem aí pra Deus”?

Para finalizar a resposta e confirmar que o cristão não tem motivo algum para se sentir culpado da condenação que algum amigo ou familiar venha a merecer pela própria conduta desviada do caminho de Deus, cito este trecho do livro de Ezequiel:

7 Quanto a ti, filho do homem, eu te coloquei como sentinela para a casa de Israel. Logo que ouvires alguma palavra de minha boca, tu os advertirás de minha parte. 8 Se eu disser ao ímpio que ele deve morrer, e não lhe falares advertindo-o a respeito de sua conduta, o ímpio morrerá por própria culpa, mas eu te pedirei contas do seu sangue. 9 Mas se tiveres advertido o ímpio a respeitode sua conduta para que a mude, e ele não a mudar, o ímpio morrerá por própria culpa, mas tu salvarás a vida. (Ez 33,7-9)

Pergunta 2) Se Deus é supostamente onisciente, porque ele agiu às vezes como se não “tivesse certeza” sobre alguma coisa?

Resposta 2) Primeiro: nenhum dos dois exemplos que ela citou indicam que Deus errou em pensar que uma coisa aconteceria, tendo acontecido outra. Simplesmente porque mesmo quando Deus nos manda fazer algo, temos total liberdade, dada por Ele, de nos recusarmos a atendê-Lo. Segundo: mais uma vez ela cita a religião muçulmana num vídeo previamente anunciado como direcionado aos cristãos. Isso demonstra que ou ela age de má-fé, tentando confundir cristãos desavisados que acham que o Deus cristão também é o Alá muçulmano, ou ela realmente não faz ideia de quão divergentes são as duas religiões e portanto, quase não vale a pena responder.
Mas, como a resposta é direcionada a quem não tomou o partido dela, vamos lá:

Deve-se compreender que Deus é bondade suprema, e justiça suprema. Outra coisa que a autora do vídeo parece ignorar é que a bíblia é uma mensagem de Deus para o mundo e como tal, é dotada de passagens com detalhes que foram escritos através da inspiração e revelação divinas especificamente para dar a conhecer à humanidade a Vontade de Deus e o Seu modo de julgar o bem e o mal.
Será que a autora leu o capítulo completo, ou apenas as frases indicadas por algum coleguinha com raiva de Deus, e tirou conclusões precipitadas e preguiçosas a partir disso? Pois lemos isto, um pouquinho antes do trecho que ela citou:

17 O Senhor disse consigo: “Acaso poderei ocultar a Abraão o que vou fazer? 18 Pois Abraão virá a ser uma nação grande e forte, e nele serão abençoadas todas as nações da terra. 19 De fato, eu o escolhi para que ensine seus filhos e sua casa a guardarem os caminhos do Senhor, praticando a justiça e o direito, a fim de que o Senhor cumpra a respeito de Abraão o que lhe prometeu  (Gn 18, 17-19)

Ou seja, Deus quis mostrar a Abraão que Ele é justo, e por isso disse em seguida que desceria até Sodoma e Gomorra para conferir o clamor que vinha de lá. E o Senhor estava, nesta ocasião, representado por três homens (cf. Gn 18, 1-2), três anjos. Foram eles que seguiram até aquelas cidades, enquanto Abraão ficou na presença de Deus (afinal, além de onisciente, Deus é onipotente!). O que se segue, nos versículos de 23 a 33 é um diálogo entre Deus e Abraão, no qual o patriarca intercede pela preservação das cidades caso hajam pessoas justas nelas. Deus se compromete a não destruí-las caso encontre pessoas justas, mas conforme nos mostra a sequencia do texto, no capítulo 19, somente a família de Ló era digna de salvação, e foi retirada de lá antes da devastação. E olha que ainda assim teve gente da família de Ló que não se salvou por desobediência ou descrença, como seus genros e sua mulher.

Portanto Deus sabia muito bem o que se passava em Sodoma e Gomorra. No entanto, quis dar a conhecer Sua compreensão e Sua justiça.

Como disse, quase dá preguiça de responder à segunda parte da pergunta, que mete irresponsavelmente o Alcorão no meio. Afinal, este não é o livro de fé dos cristãos. Mas, vá lá… Deus, enquanto origem e razão da nossa existência, tem total direito de provar a nossa fé, a nossa determinação em seguir os Seus mandamentos. Que há de errado nisso? De onde a autora pensa que saiu a premissa de se “ganhar a confiança” de alguém? Desde os primórdios da história do povo de Deus, nosso Pai Celeste prova e confirma na fé os seus filhos. Está lá, já no primeiro livro, Gênesis, quando Deus pediu ao próprio Abraão que sacrificasse seu filho Isaac (Gn 22). Abraão não desobedeceu a Deus, e Deus poupou a vida de Isaac e recompensou abundantemente Abraão, por ter sido fiel a Deus.
Também no livro dos Salmos, o profeta e rei Davi pede:

3 Prova meu coração, sonda-o de noite, prova-me no fogo: em mim não encontrarás malícia. (Sl 17(16)).

E conforme nos disse o apóstolo São Paulo na primeira carta aos Coríntios, as provações que Deus aplica a nós são justas e para superá-las, contamos com a providência divina e o auxílio do Salvador:

13 Não tendes sido provados além do que é humanamente suportável. Deus é fiel e não permitirá que sejais provados acima de vossas forças. Pelo contrário, junto com a provação ele providenciará o bom êxito, para que possais suportá-la. (1Cor 10, 13)

Pergunta 3) Por que Deus castigou Adão e Eva por terem comido o fruto da árvore do bem e do mal, sendo que somente depois de comê-lo é que eles obtiveram o conhecimento acerca justamente do que seria o bem e o mal?

Resposta 3) Novamente: para testar o ser humano. Deus nos criou com todo o Seu amor, desejando que com Ele vivêssemos por todo o sempre, O bendizendo, O adorando e O glorificando. Porém, incutiu em nós vontade própria. Seria obviamente desnecessário e inútil operar toda a obra da criação e para desfrutá-la criar bonecos desprovidos de vontade própria.
Deus não é matéria. Deus é espírito, é intelecto. É portanto através de nosso intelecto, ou seja, de nossa porção imaterial, que O conhecemos e podemos amá-Lo. Este deve ser, portanto, um ato voluntário. Assim como foi o infeliz ato de desobedecê-Lo.
Deve-se lembrar que Satanás, Lúcifer, era um anjo de Deus. Os anjos também são seres imateriais, dotados de intelecto. Lúcifer quis ser maior que Deus, o desafiou. E Deus o precipitou do alto dos céus, para longe de Si.
Assim, Deus colocou Adão e Eva à prova. E estes O desobedeceram e receberam o seu castigo.
Não devemos, no entanto, esquecer de que o amor de Deus pelo homem não acabou após o pecado original. Pelo contrário! Deus teceu o seu plano de salvação para que o homem pudesse voltar ao seu seio e desfrutasse da vida eterna. Assim como um pai castiga seu filho por ter feito uma coisa errada, o põe de castigo, mas não deixa de amá-lo, de cuidar dele, e de também recompensá-lo por praticar boas obras.

Pergunta 4) E quanto às nações que não conhecem a Deus? Se elas forem boas, não irão automaticamente para o céu? Mas se elas não forem assim tão boas, se elas conhecerem a Deus, elas “correm o risco” de ir para o inferno?

Resposta 4) Pergunta legal. Resposta levemente complexa.
Novamente a autora do vídeo ignora algumas premissas, e brinca com perguntas supostamente delicadas e supostamente sem resposta. Vamos tentar seguir uma cronologia, uma linha de raciocínio lógico dentro da história da salvação: Deus criou o céu e a terra, os seres humanos e tudo o mais que há neste planeta. Eu disse TUDO, certo? Isto inclui os índios americanos, os aborígenes australianos, os budistas, os vikings e até os esquimós (alias, os esquimós têm religião? :p ).
Ora, a pluralidade de povos e crenças neste planeta Terra do século XXI por vezes nos atordoa, e nos turva a visão. Acabamos por esquecer que no início, os homens viviam em comunhão com Deus. Sim, é isso mesmo: TODOS os homens ACREDITAVAM em Deus, no Deus dos Hebreus, dos Judeus. No Deus cristão. Mas os homens perverteram-se. Os homens muitas vezes resolveram que não precisavam de Deus. Que esse Deus era injusto, perverso, “chato”, “mandão”. Até que resolveram criar seus próprios deuses, de mentirinha, só pra desviar a atenção do Deus de verdade. Criaram religiões e crenças que os permitissem viver “em paz com suas consciências”. A prova disso é que hoje em dia mesmo não páram de surgir novas seitas protestantes (erroneamente chamadas de evangélicas) que lapidam e ajustam a fé verdadeira, da religião fundada pelo Cristo Ressuscitado, para satisfazer os interesses particulares e escusos de homens. Simples homens.
Quem nunca ouviu falar da “Torre de Babel”? É a explicação bíblica para os numerosos dialetos e idiomas que existem por aí (cf. Gn 11, 1-9).
Ou seja, o fato de existirem numerosos povos, com diversas crenças, panteísmo e etc, não determina que não exista um único Deus verdadeiro.

Outro “detalhe”: Deus elegeu um povo, dentre todos os povos da terra para através dele realizar o Seu plano de salvação. Jesus, após ressuscitar enviou os apóstolos a pregar a todas as nações:

19 Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 20 Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos. (Mt 28, 19-20)

Foi por isso, a propósito, que os jesuítas foram mandados para estas terras, para catequizar os índios! Ou você acha que as Coroas Portuguesa e Espanhola gastariam mais tempo e dinheiro à toa, mandando religiosos para “amansar os selvagens”, ao invés de “passar a espada” em quem se negasse a entregar as riquezas do novo mundo? Deve-se lembrar, inclusive, que as navegações para a América são contemporâneas à “Reforma” Protestante. Mas isso já é outra história…

Agora, aprofundando um pouco mais nesta questão do fim que levam aqueles que morrem sem conhecer a Deus, podemos perceber que a situação dos índios e demais não-cristãos é a de não batizados, e portanto semelhante à das crianças que morrem antes de receber este Sacramento. Para melhor entender esta situação, para conhecer o que a Igreja ensina a respeito da morte e da vida eterna, é preciso estudar. Recomendo, para começar, esta postagem do blog do meu irmão onde ele divulga o texto de um amigo professor e estudioso em teologia: http://captare777.wordpress.com/2011/07/18/imortalidade-da-alma-e-ressurreicao-dos-mortos-parte-i/
É um texto um pouco longo, mas vale a pena a leitura, para entender o porquê da pergunta da autora do texto ser irresponsavelmente capciosa. Para responder a esta quarta questão, precisamente, leia o trecho “O CASO DOS QUE MORREM ANTES DA IDADE DA RAZÃO”. Eu não saberia explicar melhor!
Em suma: a missão da Igreja de Cristo, a Igreja Católica, é conduzir à salvação da alma, alertando para os perigos, e apontando para a porta estreita por onde se chega a Deus: o Cristo Jesus, que é o caminho, a verdade e a vida. (Jo 14, 6)

Em tempo: é uma grande falácia acusar a Igreja de mostrar o inferno para as pessoas, fingindo que não é esta mesma Igreja que ensina os meios de LIVRAR-SE dele. Afinal, a Igreja é bem sincera ao avisar que existe o inferno. Se não o fizesse, estaria sendo mentirosa.

Pergunta 5) Como se justifica um castigo infinito por um pecado ocorrido nesta vida finita?

Resposta 5) Haha… quase que a autora arma uma pegadinha. Quase…
Elementar, Cristina Rad! Se o castigo no inferno, ou a benefício da vida eterna, no paraíso, são destinados à eternidade, ao infinito, dependendo da nossa conduta nesta vida “finita”, é óbvio que esta nossa vida não é tão finita assim, não é mesmo? 🙂
A realidade que costuma-se ignorar é que o pecado não é um ato meramente físico. Na verdade ele é, por último, praticado através do corpo físico. O pecado é um ato da alma. E a alma humana é imortal. O pecado é um ato da vontade. É a alma que peca.
Agora: não sei em qual exemplo de “pai amoroso” a autora estava pensando quando continuou com a historinha do “biscoito e da machadinha”. Talvez num pai índio tribal que assassina um filho deficiente seu, desconhecendo toda a doutrina cristã acerca do direito inviolável à vida…
Nós cristãos, conhecemos este exemplo de “pai amoroso”:

9 Quem de vós dá ao filho uma pedra, quando ele pede um pão? 10 Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe? 11 Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedirem! (Mt 7, 9-11)

Paz e Bem
O Andarilho

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Um pensamento sobre “Respostas anônimas

  1. Caríssimo irmão, Laudetur Dominus!

    As suas respostas estão bem elaboradas. Mas já que você disse que acréscimos são bem vindos, vamos se dá pra ajudar com alguma coisinha.

    – A sua resposta à pergunta 3 está correta. Mas me parece que a pergunta dela foi feita num sentido que traz uma questão de teologia moral legítima, qual seja: “se o homem ainda não conhecia o bem e o mal, como pôde ser responsabilizado pelo seu pecado?”. A resposta também é simples. Acontece que as pessoas presumem que Adão e Eva não possuíam nenhum conhecimento do bem e do mal. Mas eles possuíam e até melhor do que o nosso, pois seu conhecimento era infuso e nós precisamos percorrer um longo caminho até conseguirmos nossos parcos conhecimentos sobre as coisas. Mas, apesar de infuso, o conhecimento deles ainda era limitado às coisas naturais: eles conheciam o bem e o mal naturais, mas não os sobrenaturais. Conhecer o bem e o mal sobrenaturais é próprio apenas de Deus. E foi este o pecado de nossos primeiros pais: querer ter um conhecimento que era próprio apenas de Deus (a serpente disse: “sereis como deuses”; Deus, ao deliberar sobre o pecado de Adão e Eva disse: “o homem agora é como nós, conhecedor do bem e do mal”). Assim, o homem tinha o conhecimento do mal moral, que é um conhecimento natural e tinha a ordem de Deus. Ou seja, ele tinha consciência suficiente pra ser responsabilizado por seu pecado.

    – Quanto à questão do “castigo infinito” vale lembrar que a pena não é calculada apenas pelo grau de responsabilidade do pecador, mas também pela dignidade daquele que é ofendido. O pecado é uma ofensa contra Deus, e a dignidade de Deus é infinita, logo a pena merecida por tal ofensa é infinita. De maneira análoga, crimes de traição contra o estado ou que atentam gravemente contra a vida humana merecem pena máxima, pena de morte até, nos países em que ela é instituída.

    Parabéns pelo artigo!

    Pax et Salutis

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