O Deus feito homem


Uma noite, pedalando para casa, pensando em recentes discussões da Internet, tive um estalo:

Por isso também o Verbo se fez homem: para que o defendamos!

Não sabemos quando se dará o retorno do Cristo, para instaurar o Seu Reino e julgar a todos. Sabemos, porém, que será um retorno definitivo, ou seja, não ocorrerão “visitinhas” ou “inspeções” divinas. Por este motivo Jesus enviou à sua igreja o Seu Espírito Santo, para capacitar o seu corpo místico a difundir a mensagem da salvação.
Não devemos esperar também uma intervenção direta de Nosso Senhor como a que se deu com São Paulo, embora veja-se vez por outra acontecerem eventos nos quais alguns filhos dispersos são convertidos “pela dor”, ou seja, após passarem por um grande trauma que os desperta para a realidade da fé.

Assim, dentro do plano de salvação da humanidade – que pelo visto não inclui a permanência da presença física humana de Jesus Cristo entre nós durante esta peregrinação terreste – os homens e mulheres acolhidos e inseridos no corpo da Igreja através do batismo representam papel fundamental.

Deus se fez homem para nos mostrar que a carne não oferece um obstáculo intransponível para a santidade. É óbvio que em Sua natureza humana e divina Jesus, apesar de sofrer os mesmos tormentos aos quais estamos sujeitos, jamais pecaria. Mas com este grandioso gesto de humildade Deus nos indicou que podemos ser capazes de alcançar a graça, mesmo no estado imperfeito de nossa natureza humana.

Desde a passagem de Jesus pela Terra, toda a Verdade já se encontra revelada. E todo o conhecimento necessário para a boa vivência da fé, todo o direcionamento para nossa caminhada rumo a Deus já foi exposto, e é preservado e continuamente transmitido pela Igreja de carne e osso, representante da Palavra de Deus. No entanto, para aqueles que ainda não têm fé, tudo isto não é de fácil digestão. E é aí que o cristão leigo entra.
De maneira análoga, grande parte da experiência de vida e conhecimento necessário para uma boa vivência mundana já é detida por nossos pais. Isso logo fica evidente para uma criança, quando se dá conta da forma como eles lidam com os problemas, como os solucionam, como fazem as escolhas e tomam as decisões, dão respostas aos questionamentos. No entanto, misteriosamente (ou não…) as crianças desde cedo apresentam-se muito mais inclinadas a crer, aceitar e adotar para si as opiniões e indicações e teorias de seus pares, as outras crianças.
Em tempo: os adultos formam melhor opinião sobre os pais daquelas crianças mais comportadas…

Isto posto, posso ver que há uma disposição bem maior dos descrentes em saber de nós, leigos, acerca das matérias de que é feita a fé, muito mais do que indo diretamente às fontes, em especial aos sacerdotes. Digamos que seja uma questão de instinto. Normalmente ateus gostam de provar o conhecimento dos católicos, incentivados por sucessos em cima de representantes pouco instruídos. E é também evidente que quado um católico falha em explicar de maneira correta os pontos que compõem a sua fé, enfraquecem a visão já nebulosa de cristianismo que um descrente (mesmo um honestamente interessado em adquirir conhecimento) possui.

É díficil para uma pessoa que procura ser atéia não só aceitar a existência de Deus, como enxergar e admitir os benefícios provenientes da Igreja Católica, de seus ensinamentos. Entendo que seja difícil, que soe estranho para alguém que não tem fé receber a sugestão de orar a Deus por auxílio, ainda mais se a sugestão vier de um sacerdote. Mas se este descrente vir a fé na atitude de um católico leigo (uma pessoa “comum”, gente como a gente) que roga a Deus na adversidade, que confia à Divina Providência a sua vida, que pauta seu comportamento na moral cristã, que cumpre os preceitos católicos e mais ainda: transforma esta fé em atitude concreta em benefício do próximo,  esta fé pode tornar-se uma coisa menos distante, menos repulsiva.

A propaganda anti-católica, aliada aos reais casos de falhas do clero difundidos na mídia, criou um imaginário fantástico que mantém (neo-)ateus e demais rebeldes-sem-causa meio que desobrigados de dar ouvidos aos bons pastores, infelizmente. Por causa disso, faz-se necessário que Deus fale também através dos homens comuns, dos fiéis leigos.

E por isso também o Verbo se fez homem. Nós, católicos, mais do que ninguém conhecemos o poder de Deus. Temos noção de que sem ele nada somos, e de que para nada ele precisa de nós. Mas Deus quis precisar de nós. Ele tanto nos ama que ao invés de varrer da face da Terra a humanidade como outrora no dilúvio e instaurar logo Seu Reino Perpétuo, dignou-Se a fazer-se criatura. Deu-nos assim, a importante missão de defender a obra de um humano – Jesus, o Nazareno. Em Cristo tornamo-nos agentes da salvação!
Nossa natureza é preguiçosa. Imagine o que seria do mundo se nunca o Deus Vivo tivesse habitado entre nós. Jamais os seres humanos moveriam um dedo que fosse para mostrar a necessidade de santificação, de buscar a Deus, porque simplesmente teríamos em mente o conceito de que “Deus é tão poderoso que não precisamos falar dele para ninguém” ou “Deus vai vir um dia e cuidar disso aí…” . O mundo só não está pior por causa da ação de Deus através de homens e mulheres de boa vontade.

Os descrentes devem ver a Deus em nós. É nosso dever convidá-los a imitar o Cristo, pelo menos fazendo-os reconhecê-Lo em nós.

Que nesta páscoa o Cordeiro de Deus ressuscite em nossos corações e Seu Espírito Santo reacenda a chama do serviço, pelo bem da Igreja, e pelo bem do mundo.

Feliz Páscoa!

Bruno Linhares

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Um pensamento sobre “O Deus feito homem

  1. Salutationis!

    A época em que vivemos tem muitos pontos de semelhança com a época da Crise Ariana. Um dos pontos é o fato de que os leigos cristãos devem estar bem instruídos para defender a Igreja de Jesus Cristo. Vale sempre lembrar a declaração do papa São Pio X: “O que é mais urgente em nosso tempo é que em cada paróquia haja um grupo de leigos bem instruídos, comprometidos e verdadeiramente apostólicos“(citado pobremente de memória).

    Não podemos hoje nos dar ao luxo de sermos simples e pacatos leigos.

    Pax et Salutis

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