O voto


Para mim, o voto deve mesmo ser obrigatório.
O voto, mais do que um direito, deve ser compreendido como um dever cívico, equivalente a respeitar as leis de trânsito ou as normas de conduta de um estabelecimento.

Há quem defenda que se o voto fosse facultativo, menos políticos ruins seriam escolhidos. Eu discordo, pois se os maus políticos angariam os votos comprando-os com dinheiro vivo ou benefícios de sorte variada, todos os eleitores que já vendem suas escolhas continuariam a fazê-lo.

Eu gostaria que cada cidadão tivesse a capacidade de votar conscientemente, exercendo sua opinião, apoiando o plano de trabalho do seu candidato. Infelizmente, geração após geração, foi sendo engendrado um desinteresse – e mais do que isso: uma aversão cega – pela política. Cabe a mim, por exemplo, mudar este senso comum deturpado, tratando o assunto política com meus convivas, multiplicando conhecimento e promovendo o desejo de conquistas sociais através dela!

O voto é um exercício de expressão individual mas com efeito coletivo e por isso deve mesmo ser obrigatório. Os políticos não são eleitos para trabalharem exclusivamente para uma única pessoa, e nem mesmo exclusivamente para os que votaram nele, mas para toda a população de sua circunscrição. Assim, quando eu escolho meu candidato, estou escolhendo aquela pessoa que acredito trabalhará pelos meus interesses, que entendo possam beneficiar muitas pessoas.

Apesar de toda a besteira que vem sendo ostensivamente proferida, de que o Estado é laico, os católicos devem aproximar-se da política, e não ignorá-la. Para começar, a bandeira maltrapilha dos neo-ateus e demais rebeldes-sem-causa de que o Estado é laico que eles agitam freneticamente tão logo um cristão comece a participar de qualquer discussão que esbarre nesse assunto, é um pífio e infantil subterfúgio que tem o intuito de desmotivar o cristão, de tentar desmercer sua opinião como se os católicos não pensassem, mas conhecessem apenas as palavras, as expressões que estão contidas na bíblia. Ora, se um católico é tão tapado como eles parecem pensar, qual o medo que têm de conversar conosco? 🙂

Quando um bocó vier para vocês com esta “pérola do enem” de Estado laico, leiam: “Socorro! Tenho medo da sua fé, que conduz você para a verdade, te enche do Espírito Santo de Deus e te capacita a me derrotar pela lógica e pela os argumentos pautados na ética, na moral e no direito natural! Socorro!“. Ah! Não esqueçam de ler nas entrelinhas: “Socorro! Não me deixem sozinho com esse cristão! Qualquer outra religião eu aturo, mas o cristianismo é demais! Socorro!

Voltando à importância do voto, vejamos o que o Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica [1] nos diz:

1) Sobre a vocação política da Igreja e dos cristãos:

b) Fecundar e fermentar com o Evangelho a sociedade

62 Com o seu ensinamento social a Igreja quer anunciar e atualizar o Evangelho na complexa rede de relações sociais. Não se trata simplesmente de alcançar o homem na sociedade – o homem qual destinatário do anúncio evangélico -, mas de fecundar e fermentar com o Evangelho a própria sociedade[2]. Cuidar do homem significa, para a Igreja, envolver também a sociedade na sua solicitude missionária e salvífica. (…) Por esta razão, a Igreja não é indiferente a tudo o que na sociedade se decide, se produz e se vive, numa palavra, à qualidade moral, autenticamente humana e humanizadora, da vida social. A sociedade e, com ela, a política, a economia, o trabalho, o direito, a cultura não constituem um âmbito meramente secular e mundano e portanto marginal e alheio à mensagem e à economia da salvação. (…) – Capítulo II, pág. 46

d) Direito e dever da Igreja

70 (…) a coerência nos comportamentos manifesta a adesão do crente e não se restringe ao âmbito estritamente eclesial e espiritual, mas abarca o homem em todo o seu viver e segundo todas as suas responsabilidades. Conquanto seculares, estas têm como sujeito o homem, vale dizer, aquele a quem Deus chama, mediante a Igreja, a participar do Seu dom salvífico.
Ao dom da salvação o homem deve corresponder, não com uma adesão parcial, abstrata ou verbal, mas com a sua vida inteira, segundo todas as relações que a conotam, de modo que nada se relegue ao âmbito profano e mundano, irrelevante ou alheio à salvação. – Capítulo II, págs. 49-50

2) Participação:

a) Significado e valor

189 (…)o cidadão, como indivíduo ou associado com outros, diretamente ou por meio de representantes, contribui para a vida cultural, econômica, política e social da comunidade civil a que pertence: a participação é um dever a ser conscientemente exercido por todos, de modo responsável e em vista do bem comum. (grifo meu)
Nesta perspectiva torna-se imprescindível (…) a alternância dos dirigentes políticos, a fim de evitar que se instaurem privilégios ocultos; é necessária ademais uma forte tensão moral para que a gestão da vida pública seja fruto da co-responsabilidade de cada um em relação ao bem comum. – Capítulo IV, pág. 114

b) Participação e democracia

190 A participação na vida comunitária não é somente uma das maiores aspirações do cidadão, chamado a exercitar livre e responsavelmente o próprio papel cívico com e pelos outros (…) O governo democrático, com efeito, é definido a partir da atribuição por parte do povo de poderes e funções, que são exercitados em seu nome, por sua conta e em seu favor; é evidente, portanto, que toda democracia deve ser participativa[3]. Isto implica que os vários sujeitos da comunidade civil, em todos os seus níveis, sejam informados, ouvidos e envolvidos no exercício das funções que ela desempenha. – Capítulo IV, págs. 114-115

3) Poder político conferido pelo voto:

a) O fundamento da autoridade política

395 O sujeito da autoridade política é o povo considerado na sua totalidade como detentor da soberania. O povo, de diferentes modos, transfere o exercício da sua soberania para aqueles que elege livremente como seu representantes, mas conserva a faculdade de a fazer valer no controle da atuaçao dos governantes e também na sua substituição, caso não cumpram de modo satisfatório as suas funções. (…) – Capítulo VIII, pág. 224

4) Importância da ordem política para correta vivência da democracia:

a) Os valores e a democracia

407 Uma autêntica democracia não é somente o resultado de um respeito formal de regras, mas é o fruto da convicta aceitação dos valores que inspiram os procedimentos democráticos: a dignidade da pessoa humana, o respeito dos direitos do homem, do fato de assumir o “bem comum” como fim e critério regulador da vida política. Se não há um consenso geral sobre tais valores, perde-se o significado da democracia e compromete-se a sua estabilidade. (…) – Capítulo VIII, pág. 230

5) Valor do voto:

d) Instrumentos de participação política

413 (…) Os partidos são chamados a interpretar as aspirações da sociedade civil orientando-as para o bem comum, oferecendo aos cidadãos a possibilidade efetiva de concorrer para a formação das opções políticas. (…)
Um outro instrumento de participação política é o plebiscito, em que se realiza uma forma direta de acesso às escolhas políticas. O instituto da representação, de fato, não exclui que os cidadãos possam ser interpelados diretamente em vista das escolhas de maior relevo da vida social. – Capítulo VIII, pág. 233

Portanto, temos na doutrina social da Igreja o chamado ao trabalho, o convite a dar resposta aos anseios da população, a prestarmos nosso serviço à comunidade. É mais que hora, sobretudo para esta nova geração (da qual eu faço parte, já que conto 26 anos agora), de abandonar os clichês “política não presta”, “todo político é corrupto”, “o país está perdido” e partirmos para a participação ativa!
Basta olharmos para a bendita resistência que as bancadas cristãs têm oferecido aos maus projetos que as parcelas estragadas da política tentam empurrar nas casas legislativas, olhar para os projetos que elas propõem para ver que é um bom caminho, mas que precisa urgentemente de mais apoio, de mais pessoal. Seja pelo voto consciente e instruído dos católicos, seja pela sua candidatura.

Recomendo a leitura do compêndio, bem como a sua aquisição. É um muito bom instrumento de consulta, recheado de referências (bíblicas, mas não só) para aprofundamento dos conhecimentos sobre política e ordem social. Recomendo também a pesquisa dos documentos da Igreja, em especial os documentos redigidos pelos papas, que trazem sempre extensa tratativa dos assuntos mais importantes para a sociedade humana.

Acompanhe os demais artigos da série:

As pedras do tabuleiro do jogo político

O mito do voto nulo

Palestra de boteco: política discutida entre católicos


[1] ISBN 978-85-356-2875-3 – 7. Ed. – Paulinas
[2] Gaudium et spes, 40
[3] Centesimus annus, 46

11 pensamentos sobre “O voto

  1. Pingback: As pedras do tabuleiro do jogo político « O Legado d'O Andarilho

  2. Bruno, sou o autor do artigo sobre o voto no blog Tradição em foco com Roma, gostei muito dos seus dois artigos e suas considerações foi até mais amplo nas questões.

    Bem, como estamos na República, é com ela que temos que conviver. Mas minha posição é monarquista parlamentarista. Daí eu procuro injetar um pouco do que pode ser sadio no sistema eleitoral brasileiro.

    Grande abraço

    David

    • Boa noite, David!
      Muito obrigado por comentar.
      Ainda não me dediquei a avaliar os benefícios da monarquia que pudessem me afastar da república, mas não desconsidero o seu valor e potencial como boa alternativa. Deve-se até mesmo pelo fato de eu tentar me ater aos atos práticos possíveis de executar em favor de um melhor cenário político atual, já que não consigo vislumbrar uma conversão para outro sistema num futuro próximo ou mesmo distante (principalmente por não enxergar movimentação consistente nesse sentido).

      Até mandei e-mail e deixei comentário no facebook pedindo licença para publicar aqui um trecho do seu artigo. Quanto mais pudermos difundir o entendimento acerca do sistema eleitoral, melhor.

      Abraço! E meus parabéns pelo “Tradição em Foco com Roma”. Acompanho sempre que possível e sempre aprendo bastante com vocês.
      Paz e Bem

  3. Pingback: O mito do voto nulo | O Legado d'O Andarilho

  4. Pingback: Palestra de boteco: política discutida entre católicos | O Legado d'O Andarilho

  5. Bruno, sou amigo da Camilla Rosster, que teve seu apoio num debate pro-vida no facebook, comentou muito bem das suas ideias e do seu blog, fez divulgação do Comitê Brasil Sem Aborto no nosso movimento católico e me pediu para apoia-lo nesse sentido, como acha que posso ajuda-lo

    • Bom dia, Waguinho!
      Estou tentando fechar uma data ainda para este mês, para reunir os interessados e oficializar o comitê municipal. Agora que tenho o seu e-mail, te avisarei em breve.
      Muito obrigado por participar!
      A primeira coisa a se fazer, é procurar ficar bastante informado sobre esse assunto. Indico você baixar o dossiê publicado pelo padre Paulo Ricardo, que já dá uma noção boa de como estão implantando o aborto aqui no Brasil, desde a década de 60, pelo menos. O link para o documento está nesta postagem do site do padre: http://padrepauloricardo.org/episodios/a-nova-estrategia-mundial-do-aborto

      No mais, eu tenho bastante coisa publicada aqui também sobre o assunto. Dê uma olhada nos artigos, clicando na TAG aborto, na barra lateral. Recomendo começar a ler de trás pra frente os artigos.

      Abç

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