Comércio casal


Comércio casal

Estes dias, pesquisando sobre a diferença da união estável e do casamento civil, tropecei nesta “maravilha do mundo moderno”: Kit “Faça Voce Mesmo” – CASAMENTO RELIGIOSO COM EFEITO CIVIL R$129,00 – http://t.co/xJEX2d09

É ou não é uma banalização da instituição do casamento? Ah! E depois é a igreja que é mercenária…

Não é novidade que a falta de experiência é causadora de grandes erros, mas um produto como este só contribui para o surgimento de mais casamentos mal-feitos. Se já não bastasse o Estado facilitar a separação dos casais, garantindo a eles o “alívio” de poderem simplesmente descartar o casamento atual para começar nova vida com outra pessoa (ou às vezes nem isso), facilitando o divórcio, minorando a burocracia e resolvendo com presteza qualquer disputa jurídica por “lucros & dividendos”, agora tem gente querendo poupar os noivos do “trabalho” que é passar pelo processo e burocracia para o casamento religioso! Em poucas palavras: querem dessacralizar o casamento religioso! Literalmente pensam que podem ensinar o padre a rezar a missa. É ridículo, para dizer o mínimo.

A orientação do padre para os noivos deve ser tido como um dos maiores benefícios de todo o processo. Em muitos dos casos os noivos passam por uma entrevista com o pároco da paróquia que frequentam e, com sorte, este é o mesmo padre que viu pelo menos um dos dois crescer, o que já garante, na partida, ótimos conselhos para o casal, bem fundamentados. Este padre, este diretor espiritual, tem a capacidade de conhecer os noivos bem, conhecer suas trajetórias amorosas (pelo menos no que é de conhecimento público) e com base nisso pode mostrá-los, como se fosse um espelho, sua imagem perante a comunidade e até mesmo revelar a eles detalhes preciosos sobre a vocação do matrimônio. Penso que o padre pode até mesmo salvar um homem ou uma mulher de um casamento com uma pessoa adúltera, o que não seria nada mal… Claro que para tanto o sacerdote precisa estar atento ao seu rebanho.

Falando em experiência, muitos podem alegar que o padre, devido o seu voto de castidade, ao impedimento de contrair ele próprio o matrimônio, não seria a pessoa mais gabaritada para falar sobre casamente, por estar alheio às agruras desta relação tão complexa. Mas, em contrapartida, um padre experiente na celebração de casórios e que em sua comunidade convive com muitos destes casais que ele próprio uniu e abençoou, tem sem dúvida uma boa noção desses detalhes. No mais, o casamento não é um consórcio tão complicado e difícil de se realizar e conduzir. Os obstáculos que surgem diante dele possuem a mesma origem de todos os males: as tentações para o pecado. E nisso, caro leitor, padres são experts!

Infelizmente hoje em dia não se consegue falar em casamento sem em algum momento esbarrar na lembrança da triste realidade do divórcio. Não é de hoje que a humanidade é acometida da fraqueza de desistir da união sagrada entre o homem e a mulher, por qualquer motivo que lhes apeteça:

O repúdio da mulher
3 Alguns fariseus aproximaram-se de Jesus e, para experimentá-lo, perguntaram: “É permitido ao homem despedir sua mulher por qualquer motivo?” 4 Ele respondeu: “Nunca lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher 5 e disse: ‘Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formarão uma só carne’? 6 De modo que eles já não são dois, mas uma só carne.  Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”. 7 Perguntaram: “Como então Moisés mandou dar atestado de divórcio e despedir a mulher?” 8 Jesus respondeu: “Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o princípio. 9 Ora, eu vos digo: quem despede sua mulher – fora o caso de união ilícita – e se casa com outra, comete adultério”. (Mt 19, 3-9)

O casamento não é uma empreitada para qualquer um. Não é difícil, na acepção mais pessimista da palavra, nem é também “moleza”. Olhando bem para o casamento, como uma vocação, vemos que não é qualquer um que nasce para casar-se. Demanda muita renúncia, embora esta possa ser perfeitamente superada pelo exercício da entrega, da dedicação despretensiosa.

São de natureza diversa as tentações que atormentam os esposos. Dentre elas, a mais patente é a de ordem sexual. Ora, o desejo sexual está em nós, é inegável. Mas muitos casais arruinam-se por conflitos relacionados a este assunto, possivelmente pela diferença nos níveis de interesse, de libido, há toda uma escola psicológica e até antropológica a esse respeito. Entretanto, podemos observar até mesmo pelo lado de fora como a questão sexual é causadora de rompimentos e até mesmo de infidelidade. Eu convivo com homens de diversas idades e em diversos níveis e modelos de relacionamentos amorosos e escuto os mais escabrosos testemunhos de desordem sexual e adultérios para os quais a desculpa muitas das vezes é insatisfaçãocom o  sexo do lado de dentro. Agora: até onde o problema é gerado por falta de controle e irresponsabilidade/insensibilidade dos traidores e a partir de quando passa a ser culpa das vítimas da traição, vítimas também de sua própria negligência? O ato sexual é um componente importante do matrimônio. Em tempos passados, o insucesso das núpcias, a “não consumação do casamento” foi motivo de anulação de muitos deles. É sem dúvida um assunto complexo, pauta para discussões mais aprofundadas. Trago, por ora, palavras de São Paulo, na sua carta aos Coríntios, que comentam de maneira interessante esta questão (a tradução Ave Maria da bíblia destacou muito bem o ponto):

III – PROBLEMA DO CASAMENTO E DO CELIBATO
1 Agora, a respeito das coisas que me escrevestes. Penso que seria bom ao homem não tocar mulher alguma. 2 Todavia, considerando o perigo da incontinência, cada um tenha sua mulher, e cada mulher tenha seu marido. 3 O marido cumpra o seu dever para com a sua esposa e da mesma forma também a esposa o cumpra para com o marido. 4 A mulher não pode dispor de seu corpo: ele pertence ao seu marido. E da mesma forma o marido não pode dispor do seu corpo: ele pertence à sua esposa. 5 Não vos recuseis um ao outro, a não ser de comum acordo, por algum tempo, para vos aplicardes à oração; e depois retornai novamente um para o outro, para que não vos tente Satanás por vossa incontinência.6 Isto digo como concessão, não como ordem. 7 Pois quereria que todos fossem como eu; mas cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele. (ICor 7, 1-7)
Porém a falta de limites, o desregramento, mantém muitos homens e mulheres escravos de seus desejos, e os impulsiona a cometer graves atos de infidelidade por estes motivos. Coisa fútil, leviana. Decidem que devem ser satisfeitos por seus parceiros e impõem esta condição para ganhar respaldo psicológico, para aliviar a própria consciência para que, uma vez não sendo atendidos, estejam justificados em buscar estes serviços fora de seus lares. Muitas das vezes pagam valores direta (prostituição) ou indiretamente (casos extra-conjugais geralmente custam alto…) pelo que devem e podem por direito ter de graça.

Uma pessoa não se casa para escravizar a outra, para se tornar senhora e proprietária de um bajulador mas, pelo contrário, para servir. Para ser feliz fazendo o outro feliz. Nisso vemos como o matrimônio é símbolo da relação esponsal de Cristo com sua Igreja.
Receber benefícios é consequência da mútua dedicação do casal, e não condição ou objetivo da união.

Diz-nos a doutrina social da Igreja Católica (grifos meus):

b) O sacramento do matrimônio

219 A realidade humana e originária do matrimônio é vivida pelos batizados, por instituição de Cristo, na forma sobrenatural do sacramento, sinal e instrumento de Graça. A história da salvação é perpassada pelo tema da aliança esponsal, expressão significativa da comunhão de amor entre Deus e os homens e chave simbólica para compreender as etapas da grande aliança entre Deus e o Seu povo. O centro da revelação do projeto de amor divino é o dom que Deus faz à humanidade do Filho Seu Jesus Cristo, “o Esposo que ama e se doa como Salvador da humanidade, unindo-a a Si como seu corpo. Ele revela a verdade originária do matrimônio, a verdade do ‘princípio’ (cf. Gn 2, 24; Mt 19,5) e, libertando o homem da dureza do seu coração, torna0-o capaz de a realizar inteiramente”. Do amor esponsal de Cristo pela Igreja, que mostra a sua plenitude na oferta consumada na Cruz, promana a sacramentalidade do matrimônio, cuja Graça conforma o amor dos esposos ao Amor de Cristo pela Igreja. O matrimônio, enquanto sacramento, é uma aliança de um homem e uma mulher no amor. (Cap V, pg. 134)

225 A natureza do amor conjugal exige a estabilidade da relação matrimonial e a sua indissolubilidade. A falta destes requisitos prejudica a relação de amor exclusivo e total próprio do vínculo matrimonial, com graves sofrimentos para os filhos, com reflexos dolorosos também no tecido social.
A estabilidade e a indissolubilidade da união matrimonial não devem ser confiadas exclusivamente à intenção e ao empenho de cada uma das pessoas envolvidas: a responsabilidade da tutela e da promoção da família como instituição natural fundamental, precisamente em consideração dos seus aspectos vitais e irrenunciáveis, compete à sociedade toda. A necessidade de conferir um caráter institucional ao matrimônio, fundando-o em um ato público, social e juridicamente reconhecido, deriva de exigências basilares de natureza social.
A introdução do divórcio nas legislações civis, pelo contrário, tem alimentado uma visão relativista do laço conjugal e se manifestou amplamente como uma “verdadeira praga social”. os casais que conservam e desenvolvem o bem da indissolubilidade “cumprem … de um modo humilde e corajoso, o dever que lhes foi confiado de ser no mundo um ‘sinal’ – pequeno e precioso sinal, submetido também às vezes à tentação, mas sempre renovado – da fidelidade infatigável com que Deus e Jesus Cristo amam todos os homens e cada homem” (Cap V, pg. 137-138)

Providencialmente, antes que finalizasse a edição deste artigo, surgiu a notícia de que a Justiça condenou um pai a pagar indenização de R$ 200 mil à sua filha bastarda adulta devido a uma alegada “falta de afeto” no passado. O jornalista tratou bem do assunto no artigo, vale a pena conferir. A condenação foi certamente injusta e absolutamente fora de propósito (a própria motivação para o processo em si, ao meu ver) e serve bem como exemplo de disparate que é fruto da cultura de processos contra a qual já venho falando há algum tempo. No mais, o divórcio só é visto como direito pelos sentimentalóides. Para a “justiça profissional” não passa de um grande best seller, um produto com boa saída.
É também um registro da inegável e inconveniente falha do adultério e mais um revés do “comécio casal”.

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