O pão que amassou o diabo


Na última terça-feira de maio, ao passar em frente a um “culto de portinha”, vendo a animação com que um participante pulava e agitava as mãos durante um canto, desatei a meditar sobre as diferenças entre nós, católicos, e os protestantes mais modernos. Imediatamente me detive na Sagrada Eucaristia.

Muitos protestantes são ensinados a acreditar que a Igreja Católica distanciou-se da fé primitiva cristã, desviou-se da verdadeira adoração a Deus, trocando-a por adoração a imagem e pessoas (os santos), vendendo indulgências, etc. Mas como pode isso proceder, se nós conservamos a fé bimilenar (professada anualmente de forma pública na celebração de Corpus Christi, que acabamos de presenciar) na transubstanciação, ou seja, a transformação do pão e vinho eucarísticos no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus realizada na Santa Missa?

Nosso Senhor Jesus quis ser nosso alimento real, físico. O plano de Deus foi já representado desde muito antes da encarnação do Salvador. Lemos na bíblia que Deus mandou pão do céu para servir de alimento ao povo hebreu que peregrinava pelo deserto. Ora, aquele pão era sagrado, devido à sua procedência, tanto que um pouco deste pão, o maná, foi guardado na arca da aliança.
Do mesmo modo, a hóstia consagrada, que contém o corpo de Cristo vivo, real e ressuscitado, é sacratíssimo! Por esta razão, esta hóstia deve ser tratada com todo o respeito, toda a reverência. Não pode ser, por exemplo, guardada no bolso frontal da calça, exposto assim ao suor da púbis, ou ainda: no bolso traseiro, para ser nele sentado, nem misturado a condimentos e outros alimentos menos nobres…
Lembro-me de, na época da preparação para minha primeira comunhão, um menino contar que ouviu de seu avô que se nós mastigássemos a hóstia consagrada nossa boca iria sangrar.   :p  Era uma crendice besta, claro, mas ilustra o respeito que a sagrada comunhão inspira.

Vejamos então a noção bíblica deste mistério tão precioso da Igreja:

11 O Senhor disse, então, a Moisés: 12 “Eu ouvi as murmurações dos israelitas. Dize-lhes: Ao anoitecer, comereis carne e amanhã cedo vos fartareis de pão. Assim sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus”. 13 Com efeito, à tarde veio um bando de codornizes que cobriu o acampamento; e, pela manhã, formou-se uma camada de orvalho ao redor do acampamento. 14 Quando o orvalho evaporou, apareceram na superfície do deserto pequenos flocos, como cristais de gelo sobre a terra. 15 Ao verem isso, os israelitas perguntavam uns aos outros: “Man hu?” (que significa: o que é isto?), pois não sabiam o que era. Moisés lhes disse: “Isto é o pão que o Senhor vos dá para comer.
31 Os israelitas deram a esse alimento o nome de maná. Era branco como as sementes do coentro e tinha gosto de bolo de mel. (Ex 16, 11-15.31)

Porque é preciso alimentar também o corpo, salvar o corpo, afinal somos feitos de espírito e carne e a promessa para nós é de passarmos para a eternidade em espírito e matéria (o chamado corpo glorioso). A matéria não é má, como criam alguns hereges do passado. Nossa natureza corpórea corrompeu-se pelo pecado original.

Não se pode pretender, por isso, que o corpo não precise de santificação. Fosse assim, se Deus pudesse (e quisesse!) simplesmente substituir este corpo castigado por um novo quando no último dia ressuscitarmos (e efetivamente formos merecedores de entrar no céu, claro) não nos daria acaso logo também uma alma nova “automagicamente” por benefício gratuito e incondicional?

Jesus, com palavras bastante claras, dá-nos a exata noção da importância da sua presença real no pão e vinho consagrados:

51 “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne, entregue pela vida do mundo”. 52 Os judeus discutiam entre si: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” 53 Jesus disse: “Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. 54 Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. 55 Pois minha carne é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida. 56 Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele. 57 Como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por meio do Pai, assim aquele que de mim se alimenta viverá por meio de mim. 58 Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram – e no entanto morreram. Quem se alimenta com este pão viverá para sempre”. (Jo 6, 51-58)

Ainda cito mais uma passagem, que reforça a necessidade do alimento, físico, concreto, que nossa natureza humana adquiriu:

E disse em seguida ao homem: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó te hás de tornar.” (Gn 3, 17-19)

Antes de nossa queda, éramos providos do alimento por Deus, ainda que colhido nas sendas do Paraíso. A doação que Cristo faz por nós, entregando-se em carne e sangue é a perfeita reconciliação da humanidade ao seu estado de gratuitamente alimentados por Deus.

Aprendi também que uma ótima forma de reforçar a doutrina da nossa igreja é buscar confirmações nos escritos mais antigos do cristianismo. Um dos muitos Padres da Igreja (dos primeiros padres, dos primórdios do cristianismo), São Cipriano de Cartago, atestou a crença que havia desde o início, com os apóstolos, na presença real de Cristo na eucaristia (e de quebra, deu um aviso bastante profético contra o protestantismo e o perigo de se separar deste Santo Sacramento):

“Achas tu que alguém pode afastar-se da Igreja, fundar, a seu arbítrio, outras sedes e moradias diversas e ainda perseverar na vida? Ouve o que foi dito a Raabe, na qual era prefigurada a Igreja: “Recolhe teu pai, tua mãe, teus irmãos e toda a tua família junto de ti, na tua casa, e qualquer um que ouse sair fora da porta da tua casa, será ele próprio culpado da sua perda” (Jos 2,18-19). Igualmente o sacramento da Páscoa [antiga], como lemos no Êxodo, exigia que o cordeiro, morto como figura de Cristo, fosse comido numa só casa. Eis as palavras de Deus: “Seja comido numa só casa, não jogueis fora da casa carne alguma dele” (Ex 12,46). A carne de Cristo, o Santo do Senhor [“Sanctum Domini”, O Santo do Senhor, (era como os primeiros cristãos chamavam a Eucaristia) O Corpo e Sangue de Cristo Jesus], não pode ser jogado fora. Para os que nele crêem, não há outra casa a não ser a única Igreja”. (“A Unidade da Igreja Católica” – cap. 8, 4-5 –  escrita entre os anos de 249-258.) [1]

No link indicado há outras citações de igual teor.

Certa vez, saindo de casa para o trabalho, de manhã, acabei parando para conversar com duas “testemunhas de Jeová” que às 8h já percorriam os portões dos vizinhos (pois é…) e quando comentei a respeito desta diferença crucial entre nossas religiões, fiquei ridiculamente surpreso ao ouvir a mais eloquente delas não só negar este sacramento, como sequer conseguir pronunciar a palavra eucaristia, afirmando jamais ter ouvido o termo.

Ora, existindo essa presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo em matéria, chega a ser preocupante a dessacralização dos cultos protestantes pela ausência, pela exclusão do Cristo vivo. Sim, pois, não bastando haver muitas destas ramificações que consideram que realizam uma representação da partilha da última ceia, meramente, ainda que sinceramente pretendessem estar realizando o Santo Sacrifício, sua condição cismática elimina qualquer poder de realizá-lo verdadeiramente.

Por estes e outros motivos, a comunhão deve ser recebida não só com cuidado acerca da limpeza de espírito, mas também de corpo. Receber a comunhão nas mãos é um costume que deveria ser abandonado. Nosso Senhor está presente em cada pedaço, em cada partícula da sagrada hóstia. Não podemos correr o risco de que se perca sequer um fragmento, por menor que seja. Infelizmente, além de gradualmente se trocar a recepção da comunhão na boca pela recepção nas mãos, gradativamente também os fiéis foram perdendo o costume de cuidar de consumir todos os fragmentos que lhes sobravam nas mãos.

Da mesma forma, é justo e bom render reverência ao Cristo presente na sagrada eucaristia, seguindo a recomendação de nosso papa Bento XVI, tomando a comunhão de joelhos. Uma das referencias desta recomendacao foi divulgada recentemente aqui. Este  é o trecho especifico:

COMUNHÃO DE JOELHOS

Quando celebra a missa, o papa insiste que os comungantes recebam a comunhão de joelhos. Isso seria algo que ele deseja para a Igreja Universal?

O Santo Padre explicou esse gesto na entrevista do “Luz do mundo”. Quando o entrevistador perguntou sobre essa prática, ele respondeu que sentia a necessidade de um gesto forte que lembrasse o sentido da presença real na Eucaristia. Isso para que pudéssemos vivenciar a grandeza desse sacramento. Esse gesto é necessário para a adoração, é necessário sobretudo para que se viva tal grandeza diante da Eucaristia. Por sua vez o Santo Padre demanda esse gesto em suas próprias celebrações, mas é obviamente um gesto exemplar para todos e nós somos convidados a refletir sobre isso. Acima de tudo esse gesto é uma indicação, pois seja qual for o modo como o sacerdote celebra a missa hoje (modos que sejam lícitos e que a Igreja aprove), não devemos perder de vista a verdadeira disposição que uma fé viva deve expressar diante da presença do Senhor. Se o papa quisesse que esse gesto se tornasse uma prática regular, ele o diria explicitamente. No entanto, até no momento, ele ainda não expressou esse ponto de vista.

Temos que esta recomendação de S. S. Bento XVI está em perfeita continuidade com o estabelecido por seu antecessor, o papa São Pio X, conforme registrado no Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã (também chamado Catecismo Maior de São Pio X):

640. Como devemos apresentar-nos no ato de receber a sagrada Comunhão?
No ato de receber a sagrada Comunhão, devemos estar de joelhos, com a cabeça medianamente levantada, com os olhos modestos e voltados para a sagrada Hóstia, com a boca suficientemente aberta e com a língua um pouco estendida sobre o lábio inferior. Senhoras e meninas devem estar com a cabeça coberta. (grifos meus)

Claro que a leitura do livro, na íntegra, é altamente recomendada; para os fins do presente artigo, recomendo a leitura de todo o Capítulo IV, Parte IV.

Graças e louvores se dêem a todo o momento, ao Santíssimo e Digníssimo Sacramento!

Veja também:

et in qua mensura mensi fueritis remetietur vobis


[1] http://www.veritatis.com.br/doutrina/89-sacramentos/981-a-presenca-real-de-jesus-na-eucaristia

3 pensamentos sobre “O pão que amassou o diabo

    • Olá, Teresa!
      Exatamente. E valorizar a nossa liturgia, os sacramentos e sacramentais é de suma importância para a vivência espiritual. Não podemos jamais perder noção da dimensão sobrenatural de nossa fé.

  1. Pingback: et in qua mensura mensi fueritis, remetietur vobis | O Legado d'O Andarilho

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