A eutanásia na visão de um oncologista


Acho que a pessoa que faz um pedido desses (antecipação da morte por eutanásia) não quer exatamente morrer; quer que lhe tirem a dor.” – Dr. Cícero Urban, oncologista

Transcrevo abaixo um trecho da entrevista do médico oncologista dr. Cícero Urban publicada em 20/03/2010 em um blog associado ao jornal Gazeta do Povo chamado “Tubo de Ensaio” (http://www.gazetadopovo.com.br/blog/tubodeensaio) e que saiu na primeira edição da revista In Guardia.

As duas perguntas selecionadas apresentam a opinião do médico acerca da eutanásia, e versa também sobre a ortotanásia (manutenção de cuidados mínimos para que o paciente terminal possa seguir o curso de sua morte natural com dignidade). É interessante notar que o próprio dr. Urban também já foi paciente de tratamento de câncer.

O debate sobre a eutanásia voltou  com força quando um jornalista britânico confessou ter provocado a  morte de seu parceiro soropositivo.  Qual a sua opinião sobre a eutanásia?

  Na nossa vivência, o pedido pra morrer é um pedido de socorro de alguém que não recebeu todo o apoio necessário, especialmente do ponto de vista psicológico. A eutanásia não é a solução; ela é um grande risco de eliminar algo tão importante e fundamental na medicina, como os cuidados paliativos. A maior parte dos oncologistas e profissionais que lidam com pacientes terminais é contrária à eutanásia, e isso deve significar alguma coisa.
 Não é esse o caminho adequado, buscar a eliminação de um ser humano.
 Acho que a pessoa que faz um pedido desses não quer exatamente morrer; quer que lhe tirem a dor. Ainda existe muita dor tratada de forma inadequada, médicos que têm medo de receitar morfina a um paciente terminal porque “ele pode ficar viciado”, esquecendo que se trata de um paciente terminal.
 No Instituto Europeu de Oncologia, em Milão, há um modelo de “hospital sem dor” onde todos têm essa preocupação: uma das primeiras coisas que se pergunta ao paciente no dia é se ele sente dor. Mas aqui ainda vemos pacientes passando dor, quando poderíamos mudar isso. Paciente muito bem tratado não vai buscar a morte, mas o paciente com dor é levado, pelo desespero, a pedir coisas que não pediria se não tivesse dor.

Qual é, então, seu conceito de morte digna?

É a ortotanásia. Ela é diferente da eutanásia, é a morte no tempo certo.
 É um paciente que está em uma situação sem perspectiva de poder ir pra casa, ficar com sua família e suas coisas, e não em uma estrutura despersonalizante. UTI é lugar para se salvar vidas, não para morrer. Felizmente os médicos e as famílias estão se tornando mais sensíveis para essa realidade. Eles estão compreendendo que, se um paciente tem uma doença crônica, sem
 chances de cura, prolongar artificialmente a vida só vai trazer mais sofrimento. Mas é preciso preparar as famílias desde o início, não se pode dar o aviso só quando a morte está próxima porque o trauma é muito maior. A sociedade e os próprios médicos estão percebendo que a medicina não pode tudo, e a ortotanásia é o reconhecimento desse limite. O Papa João Paulo II é um exemplo. Estava doente, e mesmo assim continuava suas viagens – ele usou a dor e o sofrimento como instrumento de superação, e nisso eu vejo valor porque isso, sim, aproxima de Deus. Mas, quando finalmente se constatou que não havia mais nada a fazer, decidiu morrer em casa. Quer maior exemplo que esse?

***

Para ler a íntegra da entrevista, baixe a revista In Guardia acessando o blog dos responsáveis: http://inguardia.blogspot.com.br/2011/08/nossa-primeira-edicao.html

Veja também:

Minidiscurso contra a eutanásia

Jovem sai do coma quando médicos se preparavam para remover órgãos

Um pensamento sobre “A eutanásia na visão de um oncologista

  1. Pingback: Minidiscurso contra a eutanásia | O Legado d'O Andarilho

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