Religião e política discutem entre si


Caros, embora meu domicílio eleitoral não seja a cidade de São Paulo, tenho acompanhado e comentado no twitter a repercussão do imbróglio entre um senhor chamado Marcos Pereira, identificado como “bispo” da seita protestante “Igreja Universal do Reino de Deus” – doravante referida como IURD – e a arquidiocese de São Paulo, na figura de Sua Ex. Rev. cardeal Dom Odilo Scherer.

Múltiplas correntes de pensamento levantam diferentes pontos de vista acerca do tema, e eu não me furtarei de lançar o meu olhar também. Afinal, política e religião se discutem, sim! O estranho é ficar indiferente a tudo isso.

Para ambientar quem não tomou conhecimento do fato (e ainda não clicou no link acima): o Marcos Pereira publicou em 2011 um artigo no qual ele culpa a Santa Sé (!) de se intrometer em todas as esferas possíveis do sistema de ensino brasileiro e que, por causa dessa influência, a Igreja Católica seria culpada da entrega do famigerado kit-gay nas escolas daqui. O artigo ainda consta no blog dele e foi replicado no blog do Edir Macedo (bata 3x na madeira mais próxima você também!). Por um acaso qualquer – para mim foi Providência Divina – a arquidiocese de São Paulo resolveu dar uma resposta a esses absurdos agora, às portas do pleito municipal.

Em primeiro lugar: o Marcos Pereira insiste que o artigo é velho e que não teve conotação política. Está sendo cínico, nada menos que isso. Notei, logo no início do seu artigo, um recurso bastante safado que coincidentemente um outro protestante já utilizou em comentário a outro artigo do meu blog: evocar a fé católica que algum parente possui (em ambos os casos, coincidentemente ou não, figuras maternas), a qual supostamente eles respeitariam, para introduzir críticas à Igreja Católica.
Ora, conforme ele mesmo disse (segundo o jornal Estadão):

Era uma época em que eu estreava o blog e vivíamos um momento específico, que era o possível lançamento do famigerado kit gay.

Assim sendo, a conotação das acusações foi definitivamente política. Foi o Marcos Pereira que chamou a Igreja Católica para a discussão política. E só porque a resposta veio em tempo de eleição, o autor das calúnias, que também é presidente do partido PRB, se queixa de que seja uma estratégia.
Ele também alega que o artigo foi trazido à tona por um perfil falso de twitter. Sei…
Ainda que fosse, o Marcos Pereira é responsável pelo que escreve, não importa a idade do texto. Até mesmo porque não houve qualquer retratação quanto às acusações, ou houve? O que se sabe é apenas que foi emitida uma nota a respeito em seu blog, procurando desligá-lo das consquências do texto. Ele foi capaz até de acenar para os gays, como que pedindo desculpas por ter usado seu intocável kit-gay para bater na Igreja Católica, mas continua não assumindo que lançou calúnias que não poderia jamais comprovar.

Eu tenho sustentado que, se a arquidiocese não reconhece como tal, deveria. Deveria mesmo ser uma estratégia política! Se é verdade que a IURD, seita pseudocristã abortista, está por trás da campanha do candidato Russomano e que um de seus líderes (dois, no caso, incluindo o maior) ataca abertamente, vejam bem, não só a Igreja Católica enquanto religião, mas enquanto entidade política internacional (representada pela Santa Sé), a coisa está pintada e vestida de caso de polícia política!

E daí que essa polêmica vai prejudicar a campanha do Russomano? Embora ele venha sendo considerado a salvação de uma cartela pobre de candidatos, por alguns, não é motivo para poupá-lo. Se o Serra for o melhor pra cidade (não posso me aprofundar nesse mérito, já que não estudei a carreira dele na região) e não conseguir se beneficiar com o embate entre Marcos Pereira e a I. Católica, pior pra ele. E se, escorregando Russomano, o eleitorado paulistano ficar ainda mais órfão, bem, isso é lá problema deles. Nós aqui temos que lidar com a iminente reeleição do Paes (com o Freixo a lhe roer os calcanhares) e com Otávio Leite “patinando” (o termo não é meu, mas me agrada) no andar debaixo das pesquisas. Está difícil pra todo mundo…

Há, vale lembrar, a culpa ancestral da CNBB de ter auxiliado o esquerdismo no Brasil. Mais do que isso, até: de ter sido a parteira do PT. Esse é, no entanto, um assunto da, digamos, mais alta roda do intelectualismo cristão. Quer dizer que a massa de fiéis cristã (como um conglomerado das diversas denominações) ignora (nas duas acepções mais comuns) este fato. Eu, que sou um pouquinho cético, sou capaz de crer que o Marcos Pereira estava imbuído desse rancor lá atrás, em 2011, e danou a desferir suas críticas infundadas sobre a Igreja Católica.

OBS: não estou esnobando o fiel cristão ordinário. Eu mesmo custei a tomar conhecimento dessas relações escusas da CNBB. Demorei muito a conhecer a porcaria de Teologia da Libertação e demais descalabros, frutos da parceria da CNBB c/a esqueda comunista.

Essa observação me ajuda a trazer à tona o ponto de vista antiCNBB tristemente irresponsável com o qual algumas pessoas, como o jornalista Nivaldo Cordeiro, avaliam a resposta de D. Odilo. Devido a um descrédito que o Nivaldo, por exemplo, alimenta pela entidade CNBB (não sem razão, claro), ele sugeriu que D. Odilo estaria mais tentando atrapalhar a candidatura do Russomano (ainda que indiretamente, por favorecer os adversários esquerdistas) do que qualquer outra coisa. Eu não concordo. Disse isso a ele. E também pude insistir, junto ao colega Luiz Leone (também via twitter) que era responsabilidade de D. Odilo, enquanto arcebispo de São Paulo e, portanto, autoridade investida pela Santa Sé para zelar pelo nome da Igreja Católica naquela cidade. Ademais, as bobagens que Marcos Pereira escreveu não foram meras provocações anticatólicas, mas ataques à instituição feitas por um político e líder de outra religião.
Dom Odilo, aliás, desceu o lenho com palavras duras, como não poderia deixar de ser. É verdade que D. Odilo sugeriu uma “vitória sobre a ditadura militar” que não vinha ao caso (e foi o que desgostou o Nivaldo Cordeiro) mas, espanando essa poeira, o tom foi perfeitamente severo. Gostaria eu de ter dito aquelas palavras contra Marcos Pereira.

Esse mesmo instinto de dar de ombros para os atos da CNBB fez, aparentemente, que o veículo de notícias católicas Fratres in Unum sequer comentasse os vídeos que os bispos da arquidiocese do Rio de Janeiro gravaram, em atitude pastoral, para orientar seu rebanho acerca das eleições. Gostaria de estar enganado, e que apenas fosse uma questão de agenda e programação de postagens, mas quem conhece o portal provavelmente concordará comigo.

Finalizo insistindo que o caminho é esse mesmo. As entidades religiosas devem, sim, se manifestar na esfera política. Devem suscitar representantes políticos dentre os leigos. Em contrapartida, os leigos devem procurar se informar sobre política, sobre as relações da igreja no Brasil com a política e, mais ainda: aprender o que é ser um bom católico na política, de modo a se habilitarem a escolher os caminhos corretos. Os católicos possuem muitos bons subsídios para a política, nos pronunciamentos dos papas e na Doutrina Social da Igreja. A religião é uma instância não pouco importante na vida em sociedade, ainda que existam laicistas choramingando pelo contrário.

Não é ruim, em si, termos políticos flertando com as igrejas. Qual candidato não deseja ter o apoio dos seus familiares e círculos de relacionamento (os de trabalho, os acadêmicos, religiosos, de lazer, etc)? O problema é que a maioria desses que estão aí não tem fidelidade à fé que dizem professar.

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