A culpa é sua e você sabe.


2012, ano do mensalão. Um país dividido entre os que acham que algo de muito bom está acontecendo e os que acham que algo de muito ruim jamais aconteceu.

Sou cético com relação a esse assunto. Não é pra menos. Na minha visão, o julgamento é, hoje, estritamente idêntico a um plantão jornalístico que anuciasse, às 7h da manhã, uma operação da PM no morro do alemão que aconteceria às 8h: nós, pessoas de bem e vítimas (mesmo em potencial apenas) de criminosos estamos vendo uma autoridade dar conta de um dado problema, mas eles (os meliantes) também estão acompanhando e poderão se precaver.

Que quero com essa alegoria? Frisar que, condenados esses políticos corruptos, outros já corrompidos (mas não envolvidos nesse esquema em particular) já se encontram preparando novo golpe ou aguardando um momento oportuno.

Não sou o único a dizer isso. Todos falam, dentro e fora das redes sociais, que “todo político é corrupto”. O que eu não vejo ser discutido é: por que não vemos políticos idôneos?

Minha resposta a esse questionamento: não estamos levando para a política pessoas incorruptíveis. Não concorda? Olhe ao seu redor! Você também não se vê rodeado de gente querendo se dar bem? Gente que vez por outra mente pros clientes (se prestador de serviço), gente que se vangloria de ter faturado troco errado no ônibus ou na padaria, que usa o “jeitinho brasileiro” pra dobrar o policial na blitz… ou ainda: quantos de nós conhecem pessoas que estão sempre apostando na mega sena? Eu me pergunto: qual é a diferença entre esse camarada que só quer enriquecer “da noite pro dia” e o político mensaleiro? Talvez a única, seja o terno e gravata desse último. Às vezes nem isso… apenas, um esquema dá certo mais rapidamente, em comparação com o outro.
Entre aquele seu colega que faz “fezinha” na loteria e um clonador de cartões de crédito? Só a sofisticação, talvez.

Mas piora:

Eu trabalho numa pequena empresa de informática com, pelo menos, 4 adúlteros declarados. Suspeito de mais uns 3. Se o canalha é capaz de trair a mulher que o acompanha diariamente, que o apóia, que lhe é íntima e principalmente (no caso dos casados): para quem jurou FIDELIDADE diante de testemunhas muito mais prezadas por ele que tu ou eu, que se dirá do comportamento escandaloso que ele apresentará quando lidar meramente com números e papéis?

Não. Não considero digno de confiança qualquer reconhecido adultéro. Eles facilmente – e não raro – comprometem o orçamento familiar, provocam o opróbio de seus familiares (nas festinhas da firma, por exemplo), além de cometerem essas faltas através de atitudes deveras indignas, embriagando-se e/ou fazendo uso de prostitutas.

É sabido que para muitos cargos públicos exige-se do candidato que cultive uma conduta ilibada (ou reputação ilibada). Mas o que vem a ser isso?

Meireles apud Santos e Inglesi (2008, p. 60), explica que “o agente administrativo, como ser humano dotado de capacidade de atuar, deve, necessariamente, distinguir o bem do mal, o honesto do desonesto. E, ao atuar, não poderá desprezar o elemento ético de sua conduta. Assim, não terá que decidir somente entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas também entre o honesto e desonesto”.

E ainda: Ilibada, segundo o dicionário Priberam de Língua Portuguesa On-Line, feminino singular do adjetivo ilibado significa incorrupto, puro, que se ilibou, que se justificou. (Fonte: http://jus.com.br/revista/texto/13807/reputacao-ilibada-e-notavel-saber-juridico)

Pode ser esse somente um aspecto da corrupção, mas se realmente queremos representantes honestos, dignos, é preciso formarmos homens bem mais virtuosos. Educação moral é essencial.

É tempo de ensinar os novos e condenar os velhos, não lhes sendo coniventes. Isso vale para mim, também.

12 pensamentos sobre “A culpa é sua e você sabe.

  1. Não gosto de apelar para generalizações apressadas, mas é impossível não concordar que o brasileiro não tem o mínimo senso comunitário. Vale a lei do “estou resolvendo meu problema, o resto é que se dane!”

    Sabe aquela senhorinha que ocupa todo o corredor do supermercado enquanto decide calmamente qual extrato de tomate vai levar?

    Sabe aquele motorista folgado que por ter ligado o pisca-alerta (aqui em Fortaleza é conhecido também como “Botão do F***”) se acha no direito de obstruir uma faixa de tráfego por mais de dez minutos só para pegar a namorada na porta da faculdade?

    É disso que eu estou falando…

  2. Sim, não se preocupe. Não estamos generalizando, mas nos referindo a algumas pessoas específicas.
    O mote do artigo foi justamente comentar que é gente com pensamento assim que emerge na política ainda, infelizmente.

  3. Salutationis!

    É importantíssimo insistir – como este artigo faz – que se alguém tem uma conduta imoral na vida privada, certamente o terá na vida pública, onde a distância entre o ofensor e os ofendidos garante o conforto de não ter que lidar de imediato com as conseqüências mais desagradáveis de tais ofensas.

    Não há nenhuma “generalização” em ressaltar essa ligação. O problema é que a mentalidade utilitarista julga os crimes contra o patrimônio público mais graves do que os contra a moral privada ou familiar. É uma inversão de valores que gera um círculo vicioso. O fim deste caminho, é o que a gente vê na atual China comunista: lá a corrupção dá pena de morte, mas o aborto, o crime contra a vida humana indefesa, não só não é punido, como o estado obriga o cidadãio a praticá-lo compulsoriamente.

    Não havera restauração da ética pública enquanto não houver uma restauração da moralidade privada de acordo com os valores cristãos. Instaurare omnia in Christo é a única vacina eficaz contra novos mensalões.

    Pax et Salutis

    • Concordo com você Captare, se ficou evidente pelo que escrevi que eu estava apontando uma suposta generalização feita pelo autor do artigo, peço desculpas pela minha inaptidão em transcrever meus pensamentos.

      Na verdade, eu estava assumindo o risco por fazer uma generalização. Incorri neste erro conscientemente! Por mais que eu tenha citado exemplos…

      Agora, quanto a esta relação hipergâmica que o estado chinês mantém com seus cidadãos (cidadãos???). Os EUA (capitalista) punem com bastante rigor quem sonega impostos, e fazem vista grossa para qualquer “comediante” que blasfema contra o nome de Cristo (e por tabela, ofende aqueles que professam a fé cristã), por este ter invocado a “sagrada” quinta emenda! Os mesmos EUA que investem quase 1/3 do orçamento em “defesa” (armas!!), ao passo que, com intuito de “reduzirem custos”, instalam suas industrias mais poluentes em países de terceiro mundo.

      Não pretendo defender o indefensável estado chinês, longe de mim… Lá vigora um regime desumano que vê seres humanos como não mais do que recursos (“recursos humanos”, esta expressão é familiar??). No entanto, entendo que deve valer a regra de “pau que bate em Chico, bate também em Francisco”. Não vejo como citar os absurdos do “comunismo” sem citar os do “capEtalismo”.

      Abraços,

      Carlos

      • Bem, Carlos, os EUA que “fazem vista grossa” com piadas anticristãs é o mesmo que apóia a “primavera árabe”. São os EUA de Obama, democrata, esquerdista.
        Não é correto relacionar isso com o capitalismo.

        Aliás, o capitalismo tem isso de diferente do comunismo, meu caro leitor cristão-comuna (hehe): o primeiro é um ideal de sistema econômico, e suas falhas não fogem da matriz de problemas relacionados com dinheiro (quem quer mais do que deveria, prejudica os outros). Já o segundo é assaz complexo, sendo uma ideologia de governo, com artifícios de uma engenharia social violenta e autoritária.

        Enquanto não for corrigido o equívoco em comparar capitalismo e comunismo, não se sairá do lugar. Compreende o que estou mostrando? A comparação não cabe. São objetos que fazem parte de subconjuntos diferentes.

      • Não cabe culpar Obama pela postura dos EUA, pois durante o governo do nosso Amigo Bush, republicano e direitista (até demais!), as coisas não eram muito diferentes.

        Talvez, como você bem disse, os dois sistemas façam parte de subconjuntos diferentes, no entanto, o senso comum, apoiado pela nossa tradição platônico-dualista, tende a colocá-los como forças antagônicas (que de fato são). O comunismo não é julgado por sua ideologia, outrossim, é medido pragmaticamente, ou seja, as experiências de adoção deste sistema é que o condenam. O mesmo vale para o capitalismo.

        Abraços, e obrigado pela resposta!

        Carlos Amorim

      • Mas se a postura do Obama e do Bush são parecidas (não são?), isso indica que lá ocorre o mesmo fenômeno que aqui no Brasil, de uma interseção de representantes da linha de direita e de esquerda em ambos os grandes partidos. Isso faz de Bush e Obama esquerdistas, embora cada um pertença a um partido.

        Você pelo visto ainda não me compreendeu totalmente, Carlos. O problema não está em polarizar. Isso é muito útil. O problema é que confrontar o capitalismo e o comunismo é imperfeito. Eu vejo que o que dificulta o entendimento do cristão com relação aos males do socialismo/comunismo é justamente encará-lo como apenas mais uma proposta de sistema econômico, quando ele vai além.

        Não sei o quanto você já pesquisou sobre a origem do comunismo/socialismo, Marx, Gramsci, etc. É fundamental reconhecer e admitir a dimensão da difusão do comunismo para ter uma visão ampla que, sem dúvida, alertará para o conflito com o cristianismo.

        Abç

      • Eu conheço a aversão que os idealizadores do comunismo nutriam pelas religiões, sei o quanto Marx foi influenciado por iluministas como Kant, sei o quanto regimes que adotaram o socialismo perseguiu cristãos como Liev Tolstói (idealizador do “Anarquismo Cristão”), etc… O meu problema não é com a crítica ao comunismo/esquerdismo, e sim, com a defesa ao capitalismo/direitismo. Compreende? Não vejo problemas em um cristão se posicionar politicamente, mas me sinto deveras incomodado com qualquer espécie de partidarismo (por mais que eu pareça partidário também).

      • Pode até ser, mas sempre me parece que você questiona o capitalismo como que a absolver o comunismo. 🙂

        Na busca pela verdade, creio que concluamos que nenhum sistema (de governo ou econômico) que não seja inspirado (mais que pautado) pelos princípios evangélicos vá nos servir – e nem entro no mérito de que o “ótimo” só se alcançará na Pátria Celeste.
        Já quanto ao equilíbrio terrestre que sr pode obter, é outra história. Eu ainda tenho um longo caminho a percorrer nessa estrada.

        Paz e bem

      • Um conhecido meu fala em “Reinismo”, mas não consigo me acostumar com a sonoridade desta palavra, por mais nobre que seja seu significado…

        Por fim, admito que o capitalismo, dos sistemas “disponíveis” (concretos) é o menos mau, pois nos concede o mínimo de liberdade (por enquanto) para professar nossa fé… Guarde este comentário, pois pingaram gotas de sangue dos meus dedos ao escrevê-lo 🙂

        Abraços Cara, fica com Deus!

      • Haha..
        Vamos estabelecer uma trégua, então, nesta avaliação. Acredito que chegamos a um bom termo.
        Eu tenho ainda 4 anos para estudar os diversos sistemas econômicos, em preparação para uma possível carreira política.

        Fique com Deus você também.

  4. Pingback: Pensando o Brasil com a cabeça da CNBB | O Legado d'O Andarilho

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