et in qua mensura mensi fueritis, remetietur vobis


https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQ5ruLsUy2s8dokpDz2Rem14qyz_clBGeYVZcRXrH0zD6m3_qW0Olha, eu não tenho a mínima instrução em hermenêutica, nunca estudei a esse respeito. Me valho da leitura simples, da lógica e da experiência em debater.

Já vi muitas, mas muitas vezes mesmo, fazerem mal uso da passagem bíblica Mt 7, 1-5 para repreender alguém (e da maioria dessas muitas vezes era contra mim mesmo… 🙂 ) que estivesse lançando sentença sobre alguma dada situação.

Há algum tempo venho defendendo que essa interpretação está errada. Hoje resolvi registrar esta apologia.

Jesus não disse ao mundo que era errado julgar. Não disse que isso era proibido. Vamos ao texto da passagem pervertida:

Não julgueis, e não sereis julgados.
Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos.
Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu?
Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu?
Hipócrita! Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão.

Agora, vejamos: não é correto inferir que essas palavras proíbam alguém de emitir julgamento. Embora esteja escrito “não julgueis”, avaliando como um todo, não podemos descuidar do complemento “e não sereis julgado”; algumas traduções, inclusive, trazem assim: “para que não sejais julgados”.
Aqui, de pronto, já fica uma condição: Cristo nos avisa que se não quisermos ser julgados (e, por que não?: para não sermos mal interpretados pelo que dissermos), é melhor não julgar.

A continuação do texto reforça essa tese:

“Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados.”. É bem diferente de ter dito “Porque se vocês julgarem, julgarão vocês. E não é bom que as pessoas fiquem julgando umas as outras. Eu não quero isso.”.

Podemos notar que o final da passagem, o versículo quinto, elimina a dúvida quanto à licitude do julgamento: “Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão.”. Novamente, Jesus impõe uma condição. Essa última frase poderia ser formulada assim: “Para você poder julgar corretamente, precisa primeiro tirar a trave do teu olho.”.

Vejamos um outro exemplo semelhante de análise lógica das Escrituras que pode apoiar a minha tese: não parece ser uma grande contradição evangélica Jesus dizer “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada.” (cf. Mt 10, 34) e tempos depois ter dito a Pedro: “Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão.” (cf. Mt 26, 52)?

Ora, teria sido jesus incoerente, ao primeiro anunciar a espada (considere também a metáfora) e depois “proibir” o seu uso? Sem dúvida, o Cristo não podia enganar-se. E sabemos que Ele tinha outros planos para Pedro, que não envolviam um duelo mortal com aquele soldado.

Veja também:

O pão que amassou o diabo

5 pensamentos sobre “et in qua mensura mensi fueritis, remetietur vobis

  1. O que Ele quis dizer propriamente nessa passagem Bruno é que nós devemos ficar atentos como nós julgamos, qual é o critério de julgamento, pois se caso nós cairmos no erro pelo qual estamos julgando o outro, o outro nos julgará da mesma forma.

    OBS: hermenêutica tem mais a ver com dois ou mais textos que de formas, linguagens e gestos diferentes, tratam do mesmo assunto.

    Pax et ignis!

    • Boa, Cadu. Isso é um resumo bem mais prático do sentido da passagem.
      Acho que não invalida a informação passada de que o problema não é, em si, julgar. Certo?

      Sim, eu mencionei a hermenêutica porque eu não pratico essa modalidade de estudo aprofundado das Escrituras. Felizmente, para este caso, parece que nem precisa.

      Grato pelo comentário.

    • Encontrei uma forma bem tranquila de emitir julgamentos: basta julgar comportamentos e ações desvinculados de pessoas reais – portanto aplicável inclusive a si próprio! O único porém desta abordagem é a vestição de carapuças que se segue… (tenho notado muito isto no Facebook)…

  2. Pingback: O pão que amassou o diabo | O Legado d'O Andarilho

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