Adoção: nidação


Continuando a série “Adoção”, que conta a trajetória da conversão do meu casamento em família, quero tratar neste segundo artigo de aspectos emocionais do tema.

* Nidação é o momento em que, na fase de blástula, o embrião fixa-se no endométrio. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nida%C3%A7%C3%A3o)

adocao

Mas antes, preciso fazer um adendo ao texto do artigo passado:
Falei da exigência de um atestado de sanidade física e mental. Em cinco minutos de conversa o médico o assina; conferirei, mais à frente, se a avaliação médica se fará mais abrangente e específica. Senti falta de uma bateria de exames visando atestar a condição de portador de doença crônica e/ou terminal, por exemplo. Suponho que seja algo que afete diretamente os interesses da criança.

Fato é que quanto mais nos dedicamos à habilitação, quanto mais conversamos com amigos e familiares a respeito, mais arraigado em nosso coração se torna o projeto da adoção. Ainda é curioso observar a resistência que as pessoas (mesmo dentre nossos familiares) apresentam à ideia de alargar o círculo familiar com tão generoso gesto.

A principal alegação, que ganha disparada, é feita num impulso talvez até lisonjeiro: surpreendem-se com a nossa “juventude”, protestando amigavelmente ser uma atitude precipitada, precoce. Do alto de nosso um ano e meio de matrimônio, com mais dois anos de namoro, ainda parecemos jovens demais, aos olhos de nossos convivas para “desistir” de contrair uma gravidez natural.

Algumas reações incluem até mesmo a sugestão de que procurássemos tratamento de fertilidade, inseminação artificial antes de lançar mão do que lhes parece ser um “último recurso”, a ser considerado quando tudo mais falhar. Gosto de crer que tudo não passe de bondade, compaixão para com um jovem casal ansioso por ampliar sua família; tremo ao pensar que em alguns casos as recomendações são inspiradas pelo vício hodierno de não acreditar na concretude e indissolubilidade do casamento…

Em paralelo, correm também, infelizmente, discriminações deveras equivocadas. Ouvi num consultório médico a crendice medonha de que filhos de usuários de drogas trariam uma predisposição genética não à dependência – o que talvez fosse até discutível -, mas à futura busca por entorpecentes. A pobre criança estaria fadada a aceitar aquele cigarrinho dos colegas… Filho de cracudo, cracudo é?

Uma de minhas cunhadas é adotada. É uma moça perfeitamente tranquila – usa alargadores de orelhas, é verdade, mas fora isso tem a cabeça no lugar. Porém, nos primórdios da acolhida pela sua família, houve quem aventasse maliciosamente outra crendice, de que crianças adotadas tenderiam a se rebelar contra os pais não-biológicos.

É dito que, uma vez habilitado, o casal ganha a permissão de visitar os abrigos em busca de crianças que lhes despertem o interesse, de acordo com sua expectativa. Minha esposa e eu decidimos começar a visitar abrigos antes de obter a habilitação. Com efeito, qualquer pessoa é livre para visitar abrigos/orfanatos e prestar serviço voluntário. As pessoas que se dedicam a cuidar de casas que amparam menores abandonados merecem todo o nosso apoio (material e afetivo) porque desempenham um trabalho nobilíssimo. E confesso: da primeira vez que fomos ao abrigo que agora frequentamos, senti-me envergonhado por nunca ter feito uma visita a um lugar assim antes!

Para consultar uma lista dos abrigos próximos de você, acesse o site Padrinho Nota 10. O que estamos frequentando fica tão perto da nossa casa que podemos cumprir o percurso a pé. O “próximo” a ser ajudado está geralmente muito perto de nós, mesmo.
No geral, toda contribuição é bem vinda. Como a responsável nos disse, eles precisam basicamente de tudo, de materias de limpeza a roupas (para as mais variadas idades), de fraldas a frutas. Consulte a faixa-etária que o abrigo atende e a ideia do que doar ficará mais bem definida.

No abrigo a noção do cenário da adoção se torna muito mais clara. Conhecer a realidade, as circunstâncias que levam as crianças para esses lugares ajuda na preparação dos proponentes.  São variadas as histórias, passando por disputas de guarda (que confinam os pequenos nos abrigos por mais tempo que poderia ser necessário), maus tratos, julgamentos estranhos da parte dos responsáveis pelas definições legais e outros infortúnios.

E lá, interagindo diretamente com as crianças, aprende-se muito. Sobretudo quem não tem uma convivência com crianças, como é o meu caso. Eu sempre preferi evitar pegar os bebês de amigos e parentes no colo, exceto se extremamente necessário. Uma escolha boba, sem muita justificação. No abrigo eu me consertei e eliminei essa mania. É gratificante amparar um pequeno bebê chorão na sua requisição por carinho e conforto. Mas não se preocupe: a tristeza de perceber a condição delas não se sobrepõe à alegria de promover a esperança da acolhida numa família, ainda que não seja já o seu momento de se candidatar.

Um outro efeito positivo é abrir-se às possibilidades de adotar múltiplas crianças – já que existe a preferência para que irmãos sejam preservados unidos – e mesmo de adotar crianças mais velhas (acima de 3 anos). Além disso, existe a possibilidade de entrar em contato com crianças afetadas por traumas, aprender como lidar com isso e ajudá-las a superá-los. Em suma, visitar um abrigo é olhar para dentro de si com novos olhos, os olhos de crianças que precisam de uma família. É um passeio, um programa que recomendo vivamente!

***

Ao final da edição deste artigo, estamos a pouco menos de 24hs de entregar a documentação exigida para efetivamente iniciar o processo de habilitação. O terceiro capítulo da série trará algumas informações mais práticas e objetivas, certamente. Agradeço a atenção de quem está nos acompanhando.

Paz e Bem


Veja também:

Adoção: concepção (parte 1)

Adoção: dizigóticos (parte 3)
Adoção: maturação (parte 4)

8 pensamentos sobre “Adoção: nidação

  1. Pingback: Adoção: concepção | O Legado d'O Andarilho

  2. Bruno lhe parabenizo por essa atitude de adotar!
    Que vc e sua esposa sejam iluminados e abençoados por nosso Senhor Jesus Cristo.

    • Que bom, meu caro!
      Cada vez mais me convenço de que esse é um daqueles projetos que nos sentimos tentados a reservar para um momento “mais propício”, que pode nunca chegar.
      Mas confesso que houve um tempo em que eu pensava ser melhor para mim ter uma família pequena, com filho único. Mas por diversos caminhos parece que o Senhor da Vida me sugeriu um olhar diferente. 🙂

  3. Pingback: Adoção: dizigóticos | O Legado d'O Andarilho

  4. Pingback: Adoção: maturação | O Legado d'O Andarilho

  5. bruno tentei visitar abrigos pois estou apta para adoção, alem de negado, fui tratada como marginal, como se fosse comprar crianças. não é tão facil assim como vc disse.

    • Olá, Rosana.
      Bem, eu não vou mais no abrigo que frequenta, desde setembro passado. Já naquela época falava-se em restringir ou proibir a visitação de quem já fosse habilitado (não é ainda o meu caso).
      Isso pode ter virado regra mesmo. Eles cismaram de evitar hipotéticas complicações com o apego emocional.

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