Adoção: maturação


Chegamos a mais um capítulo da saga da adoção.

Num último esforço para adiantar a tramitação do nosso processo, visitando a Vara da Infância  em agosto passado simplesmente para questionar o motivo do estacionamento, pedir informações do andamento (como quem não quer nada…), consegui ser atendido por uma das assistentes sociais, que deu a explicação amplamente conhecida: o processo é lento mesmo porque, dado o perfil das crianças apontado, a coisa se arrasta, a fila cresce. A equipe de assistentes trabalha com o máximo de celeridade possível, mas não deixa de estar com déficit de pessoal.

Ela comentou que estavam ainda fazendo a rodada de “treinamento” com candidatos que se inscreveram no ano passado!

Confidencio que ela não deixou de me dar uma impressão de ser partidária da idéia de que nós, postulantes à adoção, somos muito exigentes. Sem surpresa para mim, ela “preconceituou” (vamos lá, me ajudem a desmitificar o termo) que a opção que fiz com minha esposa foi de bebê/branco. Ok, foi, mas não só! Nos declaramos dispostos a acolher uma criança parda também e mesmo irmãos. Fora que não restringimos o sexo.

Ninguém duvidaria que a maioria das crianças que vão envelhecendo nos abrigos apresenta a cor da pele de parda a escura. Mas minha esposa e eu temos a opinião de que faltam adultos, casais pertencentes a essas etnias, com esse “colorido”, que manifestem interesse pelo ato de adotar. Quanto a isso, temos lá nossa bagagem estatística. De maio a outubro do ano corrente frequentamos um abrigo e jamais vimos um casal de negros visitando as crianças. É verdade que passam bebês negros por lá, mas não temos como saber a cor dos adotantes.

Mas vamos à novidade mais significativa resultante daquela visita ao fórum: a assistente social me orientou a adiantarmos a presença nos encontros dos grupos de apoio à adoção (GAA). Me deu um papel com os dias e contatos de vários grupos espalhados pela cidade e me informou que o processo de habilitação exige a participação em 6 (seis) dessas reuniões. Antes eram exigidas 3 (três), mas como está em curso uma reformulação das normas, em breve os juízes exigirão 6 (seis). Abaixo, dados de grupos do estado do Rio de Janeiro:

Grupos de Apoio à Adoção - RJ

Grupos de Apoio à Adoção – RJ

Pois bem, começamos a frequentar os GAAs. Observação: diz-se que nem todos os grupos emitem certificado que comprove a presença, então confirme antes de ir. Claro que nada nos impede de frequentar por tempo indeterminado os grupos, para muito além das seis vezes obrigatórias. A prova disso é que os grupos são compostos de candidatos e pais que já concluíram o processo, ou seja, já constituiram a família acolhendo uma ou mais crianças adotivas.

Na primeira reunião da qual participamos, foi apresentada uma palestra sobre doenças tratáveis. A importância do tema está na necessidade de orientar os adotantes, esclarecendo que alguns quadros patológicos podem ser menos graves e complicados que se imagina à primeira vista. Existe um consenso no mundo da adoção de que é comum os candidatos almejarem acolher filhos perfeitos, os chamados “bebês Johnson” – na gíria corrente. Entretanto, a realidade encontrada diverge sensivelmente da idealização, pelos mais variados motivos. Vale a máxima: se nem nós somos perfeitos (e mesmo nossos filhos biológicos podem não se tornar), como exigir uma criança “testada e aprovada”?

A propósito, nesse dia da palestra foi informado que ser soropositivo não atrapalha o processo de adoção.

Às vezes, dependendo da condição de saúde da mãe, o bebê pode ser contaminado por uma doença da qual ela seja portadora, como por exemplo a Sífilis. É o caso conhecido como Sífilis congênita, que com tratamento desde os primeiros dias do bebê é até curável. Fala-se também, ainda que sem precisão estatística, que vem crescendo o sucesso na prevenção da infecção dos bebês pelo virus HIV. Alguns pais adotivos tiveram já a grata surpresa de descobrir, com alguns meses da criança nascida, que elas “negativaram”, ou seja, escaparam da infecção graças ao tratamento precoce. Deve ser desnecessário dizer: que nenhum proponente se insinue disponível para adotar bebês nessa condição sem a sincera e irredutível disposição a amar e cuidar da criança independente do resultado final dos exames.

São muitos os cuidados que uma criança/adolescente exigem. Deve-se sempre ter em mente que justamente as em situação de adoção encontram-se desamparadas. É importante uma reflexão e um preparo psicológico que proporcionem uma maior abertura e flexibilidade às necessidades delas. Lembre-se sempre: adoção não é mercado. Filho não é item de consumo. Importa o seu bem, não o nosso benefício.

Se você resolver alterar algum critério do perfil pretendido da criança, não bastará chegar no balcão da Vara da Infância e pedir para “rabiscar” o formulário. É necessário dar entrada em um pedido por escrito, protocolado no fórum (provavelmente em uma sala no mesmo prédio), contendo o número do processo e a assinatura de ambos os requerentes (de preferência iniciado por “Exmo(a) juiz da Vara da Infância, Adolescência e Juventude”, algo formal assim). Não precisa reconhecer firma.

A segunda reunião foi em outro grupo. Lá os assuntos tratados foram: adoção monoparental e grupos de irmãos. Uma mãe solteira narrou sua trajetória, com todas as nuances emocionais, até conseguir levar seu filho para casa. Um casal contou sua experiência na adoção de um também casal de irmãos, com cerca de 5 anos de diferença. Dois detalhes interessantes do testemunho desse casal foram:
1) eles optaram por mudar os nomes dos filhos, mesmo da menina, que já era mais velha;
2) eles acharam por bem garantir a segurança da família baixando uma espécie de  mandado de segurança, uma medida cautelar com objetivo de prevenir acesso, por parte da família biológica, aos seus dados pessoais.

Os processos de adoção juntam documentos de ambas as partes e, durante a sua tramitação, enquanto se decide a destituição do poder familiar ou enquanto dura a guarda provisória, dentre outras situações, ambas as partes possuem – por padrão – acesso ao processo (a papelada propriamente dita). Esse casal conseguiu a proteção através de um advogado particular. É uma escolha pessoal.

Ah! Eles também deram uma dica: quando chega a hora de realizar visitas à criança que se encontra em abrigo, evitar de levar presentes, para não passar uma impressão errada (como fazer ela gostar de você pelos motivos errados…).

familia-praia

O terceiro e último encontro de que participamos foi novamente no mesmo grupo da primeira reunião. Contou com a presença de uma promotora e da própria juíza responsável pela Vara da Infância que atende a nossa área residencial. Serviu para tirar as dúvidas dos participantes sobre o processo, questões pertinentes a direitos trabalhistas, planos de saúde e afins.

***

No próximo artigo comentarei sobre a fase de “treinamento”, que é uma série de reuniões em grupos de adotantes para formação mais pessoal.

Caso não venha ao ar ainda neste ano, deixo já os votos de boas festas. Feliz Natal e Próspero Ano Novo!


Veja também:

Adoção: concepção (parte 1)

Adoção: nidação (parte 2)

Adoção: dizigóticos (parte 3)

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7 pensamentos sobre “Adoção: maturação

  1. Pingback: Adoção: concepção | O Legado d'O Andarilho

  2. Pingback: Adoção: nidação | O Legado d'O Andarilho

  3. Pingback: Adoção: dizigóticos | O Legado d'O Andarilho

  4. Pingback: PLC 122, Papa “personalidade gay” do ano e adoção | Deus o quer!!! - Campo de Batalha

  5. Olá! Descobri seu blog através de um comentário no Rodrigo Constantino, não tive tempo de ler muito, mas que grata surpresa ver suas postagens sobre adoção.
    Vou contar um pouco da minha experiência até agora: meu marido e eu entramos na fila da adoção em 2009. Antes podia entrar antes desses cursos. De lá pra cá, mudamos de cidade duas vezes, mas são cidades vizinhas. Em 2010, me ligaram três vezes para falar que tinham crianças disponíveis com 9 anos de idade (a gente tinha escolhido 9 meses). Fomos ao fórum e descobrimos que nosso cadastro estava errado. Não sei se isso atrapalhou nosso andamento na fila, e também fiquei sabendo de outro casal que tinha acontecido a mesma coisa.
    Agora estamos fazendo os cursos e notei uma coisa diferente do que você citou: no nosso grupo, a maioria dos interessados em adotar é parda.
    E interessante o que você disse sobre a assistente ter “preconceituado”, é verdade e me irrita muito isso. Sempre que vejo reportagens ou pessoas comentando, parece que a culpa sobre os abrigos estarem cheios é dos adotantes, quando na verdade é primeiramente dos pais biológicos, que perderam a guarda; segundo, do Estado, que é lento, e depois, dos adotantes. Sem contar que os abrigos estão cheios de crianças que não estão aptas à adoção.
    Conheço dois casais que adotaram bebês, um adotou um menino e outro adotou uma menina, acho que as duas crianças são brancas. Quer dizer, até os mais difíceis demoram mas vão. Ah, e no curso havia um casal pardo que adotou um menino de 13 meses em mais ou menos um ano. Acho que muitas vezes depende do juiz.
    Enfim, é isso! Se você e sua esposa quiserem perguntar algo, fiquem à vontade. Vou acompanhar, sempre fico feliz de achar blogs católicos.
    Um abraço,
    Viviane

    • Olá, Viviane!
      Muito obrigado por partilhar sua história!
      Fiquei na dúvida: vocês resolveram não prosseguir com a adoção das crianças de 9 anos, ou não deu certo porque o cadastro estava com erro? Pergunto isso porque captei durante esse tempo que estive envolvido com a vara da infância que eles levam a mal quem recusa os convites. Ainda mais porque a ordem atual é aplicar grandes esforços em resolver a situação dos mais velhos.

      E, sim, a rotatividade de bebês me pareceu bem grande, bem fluida, pelo que observamos no abrigo que frequentávamos, inclusive de bebês negros.

      Tenho um jornal aqui, do dia 25, que informa que, segundo o CNJ, 77% dos pretendentes à adoção estão na faixa de 41 e 50 anos, sem filhos biológicos. Eu me imaginei, com essa idade (tenho 28 agora), adotando já pela segunda vez. E seria uma criança mais velha. É um equilíbrio muito delicado, esse que temos que alcançar. Todos os menores adotáveis merecem um lar. Por isso devemos, no mínimo, promover o assunto e o interesse.

      Serás sempre bem-vinda!
      Te convido a assistir o programa quinzenal que apresento com outros amigos blogueiros católicos, a “Liga dos Blogueiros Católicos”. Os programas são transmitidos pelo youtube aos sábados, a partir das 22:30h (ao vivo) e ficam disponíveis para assistir depois: http://youtube.com/blogocatequista
      Inclusive, o último programa fala de um assunto muito sério sobre família.

      Abraço!
      Paz e Bem

  6. Olá! Não, nós não quisemos adotar mesmo, e também já ouvi de assistentes que, se você recusa algumas vezes, realmente você será chamado para uma conversa para saber o motivo, e acho que dependendo da resposta eles podem mesmo levar a mal. Mas no nosso caso a culpa não era nossa, pois o processo estava errado, então acho que não houve problema. Teve um caso de uma senhora que contou que já estava há uns sete anos na fila, estava se queixando e tal, então um dia peguntei pra assistente o que estava acontecendo, e ela me contou que a tal senhora já tinha recusado crianças várias vezes por motivos idiotas, tipo “não posso ir conhecer a criança essa semana porque o pneu do carro furou, posso ir semana que vem? (?!?!?)”, então essa senhora foi chamada e acabou saindo da fila.
    Nós estamos pensando em mudar nosso cadastro para crianças de até 18 meses, quando terminarmos o curso vamos ver. Já criança mais velha não decidimos ainda, certamente admiro quem escolhe esse caminho.
    Agradeço a dica, vou ver o programa sim!
    Viviane

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