A greve que deixou em evidência o lixo


Carnaval 2014, Rio de Janeiro. G.R.E.S. Unidos da Tijuca campeã. Greve dos garis, lixo acumulado.

(Fonte: @paulo83)

(Fonte: @paulo83)

A administração do Comlurb entrou em acordo com o sindicato da categoria (que, diz-se, não aprovou a greve) e concedeu um aumento do piso, com um adicional que deixa o valor bruto final um pouco acima do salário base exigido pelos manifestantes. Entretanto, alguns garis recusaram-se a voltar ao trabalho na segunda-feira de carnaval e ainda por cima ameaçaram furadores da greve que trabalhavam nas ruas da zona sul no domingo. A Comlurb, no uso do seu direito conferido por contrato de prestação de serviços, decidiu demitir 300 funcionários. Há cidadãos aprovados em concurso recente, prontos para assumir as vagas. É bem capaz que os desempregados entrem com processo para reaver os empregos.

Atualização (06/03/14-13:10h): O prefeito Eduardo Paes disse que vai suspender as demissões para quem voltar ao trabalhao nessa quinta em seu respectivo horário.

Neste ponto, quero trazer uma observação assaz pertinente acerca do direito à greve, feita por Henry Hazlitt, autor do livro Economia numa única lição [1]:

É possível uma greve pacífica.
Até o ponto em que assim se mantenha, é a arma legítima do operariado, muito embora deva ser empregada raramente e como último recurso. Se os operários, como um organismo, se negam a trabalhar, podem fazer com que o patrão inflexível, que os vem pagando mal, volte à razão. Talvez, ele descubra que não poderá substituir esses operários por outros igualmente bons, dispostos a aceitar os salários que os primeiros tinham rejeitado.
Mas no momento em que os operários têm que empregar a intimidação ou a violência, para fazer valer suas exigências— no momento em que se utilizam de piquetes, para impedir que qualquer dos antigos trabalhadores continue a trabalhar, ou para impedir queo empregador  contrate novos operários permanentes para substituí-los— o caso torna-se discutível, pois os piquetes estão, na realidade, sendo usados, não só contra o patrão, mas contra outros operários. Esses outros estão dispostos a aceitar os empregos que os antigos empregados deixaram vagos, e pelos salários que os antigos estavam rejeitando. Esse fato prova que as outras alternativas abertas para os novos operários não são tão boas, quanto as que os antigos haviam recusado. Se, portanto, os antigos operários conseguem pela força impedir que novos trabalhadores os substituam, estão impedindo que estes escolham a melhor alternativa que se abre para eles, e forçando-os a aceitar coisa pior. Os grevistas, portanto, estão insistindo numa posição privilegiada e empregando a força para manter sua posição privilegiada contra outros operários.

(Fonte: G1)

(Fonte: G1)

Ou seja: greve não é recurso para se gastar indiscriminadamente, sobretudo porque em grande parte dos casos, ela prejudicará alguém além do patrão. O ponto de destaque do autor do trecho citado é que esses cidadãos lesados podem até mesmo ser da mesma categoria dos grevistas. Outrossim, a inviabilidade da greve torna-se mais patente quando a classe está relacionada aos setores da saúde ou da educação. Nestes casos, particularmente defendo que não há permissão moral. O jornalista Rodrigo Constantino comentou, quando da recente paralisação dos professores, a tristeza que era levar sua filha para a escola particular que ficava em frente a uma escola pública: enquanto a filha dela desfrutava do direito à educação, outras crianças da mesma idade o tinham negado – e por aqueles responsáveis por prover o serviço! Aí, depois, os esquerdistas sindicalistas de plantão prontamente alardeiam que “o filho do rico estuda bem” e que “ao pobre não é dado acesso à educação”, emendando num discurso de desnivelamento das classes sociais que só pode ser corrigido através da aplicação de cotas.

Excepcionalmente dessa vez (dos garis) o sindicato da classe se isentou de responsabilidade sobre a greve, mas por ser um fato inusitado, não custa lembrar aos trabalhadores sua responsabilidade social que pode e deve ser independente das diretrizes socialistas. Diz-nos a Doutrina Social da Igreja Católica:

A doutrina social ensina que as relações no interior do mundo do trabalho devem ser caracterizadas pela colaboração: o ódio e a luta para eliminar o outro constituem métodos de todo inaceitáveis, mesmo porque, em todo o sistema social, são indispensáveis para o processo de produção tanto o trabalho quanto o capital. À luz desta concepção, a doutrina social “não pensa que os sindicatos sejam somete o reflexo de uma estrutura ”de classe’ da sociedade, como não pensa que eles sejam o expoente de uma luta de classe, que inevitavelmente governe a vida social”. Os sindicatos são propriamente os promotores da luta pela justiça social, pelos direitos dos homens do trabalho, nas suas específicas profissões: “Esta ‘luta’ deve ser compreendida como um empenhamento normal das pessoas ‘em prol’ do justo bem: não é uma luta ‘contra’ os outros“.

[1] http://www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=25


Veja também:

A terrível idade das pedras

Unidos pelo lixo no RJ (por Reinaldo Azevedo)

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