Vivendo o tempo pascal


Rezando o terço outro dia, enquanto trabalhava de casa por estar zelando pela saúde de minha esposa, detive-me um pouco mais demoradamente no segundo mistério doloroso, da flagelação de Jesus.

(Fonte: tulacampos.blogspot.com)

(Fonte: tulacampos.blogspot.com)

Na Sexta-feira Santa passada, quando tradicionalmente realizamos em nossa paróquia horas seguidas de adoração ao Santíssimo Sacramento – o Corpo de Cristo exposto na espécie do pão consagrado (hóstia) – conduzi uma breve reflexão que versava sobre o grande exemplo de superação das tentações que Nosso Senhor nos deu naquela noite dramática de quinta-feira, quando rezava no Jardim das Oliveiras.

Por tantas vezes, nós, diante da pressão de nossas angústias e frustrações, sofremos a tentação de pedir a Deus o alívio das tribulações. Quando a esperança nos falta e nos sentimos incapazes de cumprir os desígnios do Altíssimo, o diabo nos tenta como a Jesus no deserto, oferecendo toda a sorte de compensações sedutoras. Somos incitados a crer-nos fracos, mas pior: derrotados; para alguém que, portanto, supõe-se abandonado por Deus, que sobrevenham, pois, os prazeres mundanos! Imagino, inclusive, ser essa a essência da preguiça, do comodismo: em face de um benefício nobre, mas que nos parece inatingível pelas próprias forças, pela própria vontade, abandonamo-nos a qualquer agrado marginal, até mesmo indigno da vocação humana da santidade.

Jesus, prevendo os maus bocados violentos que passaria nas mãos dos romanos – a pedido dos judeus – teve a reação humana de pedir ao Pai:Tudo te é possível, afasta de mim este cálice!” (cf. Mc 14, 36 ); observe-se que a agonia do Galileu foi tal que O fez repetir a súplica; ora, quem de nós não sente um arrepio na espinha só de ver alguém dar uma topada feia na rua, reagindo à imaginação de caso fosse conosco? Multiplique por 10 elevado à 25ª potência…
Porém, o Ungido de Deus, o Cristo, no uso de toda a força (de vontade, também, sim) conferida a si pelo Espírito Santo, foi capaz de abraçar o cálice, a sentença e todos os ferimentos advindos dela, de bom grado, para o cumprimento da sua empreitada: religar (acredita-se que desse verbo deriva o substantivo religião) todos os seres humanos ao Criador, de forma definitiva, na ordem original – que não devia ter sido quebrada, pelo pecado original.
Vale frisar: não se atribua a capacidade de vencer a dor excruciante apenas à natureza divina de Jesus; a história bíblica nos apresenta muitos exemplos de meros homens que realizaram grandes feitos, mesmo milagrosos, através da graça de Deus.

Por isso foi vital para a obra da redenção do gênero humano, que o Salvador derrotasse a condição enfraquecida dos homens. Por isso era absolutamente necessário que o Filho de Deus se fizesse um de nós. Mas somente reconhecendo o significado desse resgate, ou seja, a missão própria e profunda da primeira vinda de Cristo à Terra, é que se conhece a dimensão do sacrifício da morte de cruz.

É quando nos esvaziamos de nós mesmos que somos capazes de atender aos desígnios de Deus. Só nos despindo da mesquinhez – que é até mesmo capaz de culpar o Criador por não tornar nossas vidas “mais fáceis” – que podemos enxergar e sentir a Sua presença nas nossas vidas. Apenas reconhecendo, confessando que, não importando o percurso, é Deus quem sai vitorioso e glorificado (cf. Jo 17, 1-5), é que o cristão atinge a beleza da firmeza na fé e de ser instrumento da obra divina. Ah, mas como nos é dificil!

É por essas razões que dizemos, adotando a fórmula do rosário proposta por São Luis Maria Grignion de Montfort e praticada pelo grupo de oração e estudo Servos de Fátima, fundado por meu irmão, ao final da sétima dezena: “Graças ao mistério da flagelação de Jesus, descei em nossas almas. Assim seja“. Somente pela graça de Deus poderemos ser capazes de reproduzir os feitos heróicos de Jesus, que derrotou a sua própria natureza humana frágil, a carne, em benefício da obra salvífica divina.

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