Regulamentação do aborto mais ou menos discutida na UFF


Participei ontem do evento “Regulamentação do aborto”, parte do ciclo de palestras “Quebrando tabus” promovido pela OAB na Facvldade de Direito da UFF (Niterói-RJ).

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ATUALIZAÇÃO: Publiquei mais cedo o artigo considerando o professor Thiago Minagé no lugar do professor adjunto Eder Fernandes. Como não pude adentrar o auditório durante as palestras e depois não o vi passar, não confirmei a tempo, apesar da suspeita, quem fez a explanação. Já troquei os nomes ao longo do texto. Ao menos sei que não causei maior dano à imagem do prof. Thiago Minagé que o escolhido para representá-lo. Obrigado, Patrícia, pela correção.

Narro a seguir, de memória, o que se passou:

O primeiro fato digno de nota foi a presença maciça no evento. Houve grande mobilização por parte dos católicos, é verdade. Aliás, jamais vi tantos católicos, tantos pró-vida concentrados num mesmo evento dessa natureza. Acredito que a organização do evento não esperava aquela tão grande procura, que lotou o auditório, transbordando para o saguão e até obstruindo o corredor lateral. É interessante ressaltar que tal fato demonstra o enorme interesse que o assunto desperta na sociedade brasileira, mas para muito além de uma simplória questão sanitária: a população quer ver direitos preservados, quer a dignidade de ambos, mulher e filhos, preservada.

2014-08-27 19.26.29A primeira palestra, da professora de enfermagem Helen Campos, me surpreendeu positivamente. Quem frequenta eventos de discussão sobre o tema está acostumado a deparar-se com profissionais de saúde francamente abortistas, salvo aqueles que são convidados por agentes pró-vida. Helen, pelo contrário, apresentou uma explanação muito direta, objetiva e detalhada sobre os procedimentos técnicos sem desqualificar o feto, sem coisificar o ser humano que é vítima fatal do aborto. Magnanimamente chamou a audiência feminina à responsabilidade, afirmou a obviedade infelizmente solenemente ignorada (como os dois últimos palestrantes fizeram) da existência da nova vida desde os primeiros instantes, desde a fecundação. Finalizou com o essencial testemunho da realidade enfrentada no atendimento das mulheres e prestou grande serviço à platéia ao destacar as brechas na legislação, como a ausência de exigência de boletim de ocorrência como atestado de violência sexual.

O que salva vidas, principalmente a das mulheres, é a verdade. Transmitir as informações com franqueza, livre da patrulha politicamente correta que pretende ludibriá-las. Para mim, a mensagem da professora Helen foi muito clara. É ilógico um profissional de saúde ser favorável ao aborto, por todas as razões imagináveis – e contra todas as razõs inventáveis. E evidentemente, para quem tem boa fé, não é sequer necessário um proselitismo taxativo que clame “não aborte!”. Essa é a mensagem ululante: não existe benefício na eliminação da vida do bebê. Por ser tão óbvio, é também tão chocante e monstruoso o malabarismo daqueles que tergiversam.

2014-08-27 19.26.06Em seguida tivemos a palestra do padre Anderson Batista. Começou pronunciando-se contra a má interpretação de “estado laico”, reexplicou todas as técnicas de aborto, com riqueza de detalhes e seguiu apresentando uma gama variada de informações para a platéia, recheadas de referências documentais: relacionou a postura pregressa da ONU, mencionando datas e documentos onde a defesa da vida desde a concepção ainda era um desejo, falou do tribunal de Nuremberg, traçou o paralelo entre uma declaração em favor da escravidão nos EUA do século XIX com os argumentos de Roe vs Wade (emblemático julgamento norteamericano que escancarou as portas para a legalização do aborto), citou o dr. Jérome Lejeune, desmascarou o socialismo, definindo-o como “comunismo sem revolução armada” (fundamental, já que muitos ainda são enganados de não reconhecê-lo como comunismo que é), enfim, disse tudo que era necessário e nunca demais repetir. Foi aplaudido efusivamente pela platéia.

Até aqui, Vida 2 x 0 Morte. Um placar surpreendente, contrariando as expectativas. No entanto, dentre todas as falácias e desonestidades previsíveis, para além dos cálculos da desvantagem numérica, eu mesmo não previ que a mesa acabasse substituindo o time que perdia. Saiu a Morte e entrou a Desinformação.

O terceiro convidado foi o professor de direito penal Thiago Minagé. Entretanto, ele não chegou a tempo e foi substituído pelo professor adjunto Eder Fernandes. Covardemente, este optou por um esforço de desconstruir a palestra do padre, ao invés de desenvolver a parte que lhe cabia. Numa atitude imatura muito mais compreensível se emanada de um adolescente, sequestrou o assunto da escravidão que o padre Anderson utilizou, pervertendo-o de maneira a difamar a Igreja Católica, acusando-a de ter sido conivente com esta histórica injustiça que pesa sobre os ombros de toda a humanidade. Demonstrando desrespeito aos convidados à mesa, verbalizando justamente o sentimento antirreligioso para o qual o padre preveniu a todos no início de sua palestra.

Eder Fernandes externando sua vanglória

Eder Fernandes externando sua vanglória

Agora, vejamos: eu não sou universitário. Tenho apenas um singelo ensino médio técnico completo. Mas compartilhei, durante boa parte da vida, do imaginário coletivo de que as universidades abrigam homens sábios, de que enviamos nossos filhos para lá se alimentarem de alto conhecimento. É inevitável perguntar: é para ficar sob a influência tacanha de pessoas assim que a população briga por oportunidades e trabalha por condições de pôr seus filhos nas faculdades? A boçalidade proclamada por Eder Fernandes é facilmente esclarecida, dada a vasta documentação existente e tantos trabalhos de historiadores, inclusive contemporâneos. Cito aqui, recomendo vivamente que leiam o livro “A Igreja Católica em face da escravidão” de Jaime Balmes, que apresenta um honesto relato abrangendo todas as fases da história da humanidade e a sua relação com a prática de escravizar seus semelhantes, desde a Antiguidade.

Ocorre que o evento não era um debate. Realmente enganou-se quem entendeu assim. Sequer entre os palestrantes existiu direito de resposta ou de contra argumentação. Mas, tudo bem, não precisava ser. Entretanto, na ausência de expectativa de espaço para corrigir equívocos (posto que não seria aberta a ocasião para comentários) e enfrentando a mentira, a empáfia e a difamação contra uma instituição ali representada – a Igreja Católica – criou-se uma obrigação moral de posicionar-se e denunciar. Quem quer que não seja feito da mesma substância de um Eder Fernandes, independente da confissão de fé (ou não), sente-se compelido a proteger do estrago a audiência. Assim, bradamos contra a covardia, interrompemos a palestra, perturbamos o silêncio que – é dever ressaltar – imperava.

Como o relativismo há muito já prejudicou o julgamento no ambiente acadêmico, é natural e compreensível a reação de vários espectadores. Num olhar desatento, obnubilado, nossa gritaria não passou de falta de educação. Fiz o meu possível para ali mesmo, findo o evento, pedir sinceras desculpas a quatro pessoas pela forma urgente de intervenção. Note-se que aquela não foi a única reação às palavras venenosas do palestrante: uma senhora levantou-se e retirou-se do auditório em estado de perturbação e eu precisei ampará-la, buscar um copo d’água no andar inferior. Insisto: a interrupção não é desejável, obviamente. Mas não deixou de ser justa. Para a faculdade de Direito, que fique compreendido.

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A última palestra foi a da feminista Bia Lopes. Aproveitando para chafurdar na lama esparramada pelo seu antecessor, despejou mais contrassenso antirreligioso, acusou – quando na verdade, praticou! – apelo emocional na explanação do padre mas, finalmente, reconduziu o ciclo para a sua finalidade. Evidentemente discordo de praticamente tudo que ela disse, desde a queixa estúpida, embebida nos clichés mais deprimentes (em se pensando num ambiente acadêmico) de opressão da sociedade machista-patriarcal-carola, passando por trazer à baila ideologia de gênero(!) – para as feministas, a mulher precisa ser livre não só para engravidar e abortar de seus parceiros, seja conssentindo, seja quando violentadas, mas também se lésbicas inseminadas – chegando até o que é uma das coisas mais graves da retórica assassina abortista: para essas pessoas, a mulher é um ser em crônica fragilidade emocional e social, incapaz de amadurecer e de arcar com a responsabilidade (que precisa ser adiada tanto quanto possível) da tutela de outro ser humano. Em seu ímpeto egoísta, hedonista e imediatista, ignoram que a natureza feminina é toda predisposta à gestação e que qualquer sugestão de reversão da gravidez é, antes de mais, uma agressão a essa condição.

2014-08-27 18.33.21Porém, para um agente pró-vida nada disso é novo ou surpreendente. A atitude monstruosa da parte de Bia Lopes e absurdamente cínico foi, estando ela na presença de uma menina anencéfala (que estava nas primeiras fileiras do auditório) ter a pachorra de lançar mão do argumento furado da necessidade de descriminalização do aborto para estes casos e por tratar-se de risco à saúde da mãe (outra falácia). Neste ponto, gritei eu, de fora do auditório “tem uma menina com anencefalia aqui!” enquanto já se manifestava também, do lado de dentro, o sr. Haroldo, pai da menina Ruhama[1], hojé já com dois anos completos e gêmea de um menino plenamente saudável, que lá também estava. É desta substância abjeta que são feitos os abortistas convictos. Citar os nazistas, como o padre fez, restou perfeitamente oportuno: estávamos na presença de semelhante pensamento. Deu-se, assim, a segunda grande interrupção de palestra, devidamente incluída na apologia feita mais tarde.

Bia Lopes, ao menos, levou o assunto para o campo legislativo, embora tenha se detido na esfera federal. Ninguém citou o PL 416/11 dos deputados da ALERJ, que visa instituir casas de apoio à gestante nas quais as mulheres em situação de risco social e gravidez inesperada poderão receber toda a salutar assistência obstetrícia, psicológica e mesmo financeira para livrar-se do risco mortal do aborto e, principalmente, ter a sua dignidade verdadeiramente preservada. Só um, de tantos exemplos de atitudes que consideram a mulher profundamente, não apenas como um mero exemplar da “causa”.

2014-08-27 20.36.02No geral – palavra de quem frequenta esse tipo de evento – foi uma noite valiosa, memorável. Os maliciosos receberam sua paga, pelas vaias. Não foram capazes de destruir tudo que foi edificado pelos dois palestrantes iniciais. Deixei para uma moça que me pareceu ligada à organização, com quem conversei ao final, a sugestão de que, em lugar da problemática abertura de comentários e perguntas (que não houve e provavelmente nem fosse planejada) que sói ser encaixada ao fim das palestras, reservar ao menos um momento para considerações dos convidados, para contra argumentação, direito de resposta e afins.

Concluo parabenizando quem lá esteve. À organização, pela iniciativa que, ao menos desta vez, nasceu com a chances de ser equilibrada (diferentemente de outras audiências onde a armadilha é explícita). Aos católicos que, mesmo com a expectativa do avilte compareceram em peso, testemunhando mais uma vez o nosso total desejo de discutir, acolher e propor soluções com destemor. Aos bravos aos quais me uni, que alertaram e denunciaram o erro. E em especial às três moças e um rapaz que tiveram a gentileza de, mesmo de dentro da sua indignação, acolher meu esforço de conciliação.

Quem chegou até o final do presente artigo, notará que já desenvolvi em muitas ocasiões os argumentos pró-vida, inclusive confrontando atitudes e decisões dos partidários da descriminalização. Alguns dos artigos estão linkados abaixo, outros podem ser acessados pela tag “aborto” no menu lateral. Deus abençoe a todos.

Gravação da palestra do Pe. Anderson:

 

[1] http://www.robsonpiresxerife.com/esporte/bebe-caicoense-com-patologia-rara-chama-a-atencao/#.U_9u2sOEbeQ


Veja também:

Entre mortas e feridas, tentam salvar o aborto

A medida provisória e a estupidez permamente

Aborto é uma questão do que EU quero?

Profilaxia aplicada aos abortistas

Aborto não é necessário

Um aborto mal feito da Planned Parenthood deixa mulher estéril

11 pensamentos sobre “Regulamentação do aborto mais ou menos discutida na UFF

  1. Só um adendo, não foi o professor Thiago que palestrou. Até o momento do início do debate, ele não havia aparecido.. apresentaram somente 3 palestrantes (Padre Anderson, Prof. Dr. Helen Campos e feminista Bia Lopes). Durante a palestra do Padre Anderson a Bia Lopes saiu, e somente depois apareceu o palestrante para substituir o prof Thiago, que foi justamente esse Eder Fernandes que você colocou em uma das montagens. No mais, parabéns pelo texto!

  2. Excelente artigo Bruno Linhares! Fiquei feliz por ter ido e conhecido vocês. Só fiquei triste porque pensava que pessoas que estudavam Direito tinham capacidade de argumentação… Ledo engano! Mas agora já aprendi que não se pode esperar argumentação lógica de quem defende regulamentação para assassinato de inocentes. Só as boas e velhas falácias e frases clichês.

    • Obrigado pelo comentário, Maria Juliana. Foi um prazer materializar amizades, como a nossa, lá.
      Acho que este foi o aspecto mais estarrecedor mesmo. Nós, acostumados a combater abortistas em eventos assim, conhecemos o seu pensamento. Mas deparar-se com a degradação do relativismo entre estudantes e formados em Direito é incrível!
      Aliás, é justamente por esse relativismo que eles, na besteira de achar que existem vários lados certos, escolhem o mais conveniente e que é justamente o errado.

  3. Aprendi algumas coisas importantes ontem: 1-O principal argumento a favor do aborto é que a Igreja Católica apoiou a escravidão. 2-Crianças com anencefalia não são seres vivos (mesmo que uma delas esteja na sua frente te olhando e te ouvindo). 3-Tem gente que pensa que ser chamado de comunista é elogio. 4-Impedir uma mulher de abortar é como impedir um diabético de usar insulina (haha essa foi muito boa!). 5- Realizar aborto em clínicas legais é super seguro (assim como as câmaras de gás eram uma forma segura e rápida para matar aqueles indesejáveis judeus). 6- Eu sou mulher e por isso sou oprimida, isso é uma lei da natureza! Devo odiar todos os homens e suas instituições burguesas-machistas-opressoras, mesmo sem razão, afinal o ódio pelo ódio é o que deve guiar minha vida. 7- O meu útero é laico (mas na verdade ele deve pertencer à ideologia de alguns autores marxistas). 8- Universitários são inteligentes demais para entender que a luta para não regulamentar o aborto não é religiosa, mas sim uma luta de qualquer ser humano com um pouco de honestidade intelectual para entender que “não matar um inocente” é uma premissa básica da moral humana.

  4. Jurava que o terceiro palestrante(Eder Fernandes) era algum universitário maconheiro bem comum lá na UFF, mas não, é professor! O covarde depois de ter recebido respostas de católicos excluiu seu próprio comentário no facebook. Esse sujeito é tão ridículo, ele considera, mesmo que seja autêntica os dizeres do padre citado, que o verdadeiro representante da Igreja aqui na Terra seja qualquer padre herético, não seu Pontífice, ou algum santo ou algum Doutor da Igreja, que publicou diversos documentos contrários a escravidão: http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/magisterio/documentos-eclesiasticos/decretos-e-bulas/506-documentos-oficiais-da-igreja-contra-a-escravidao
    Muito bem escrito no blog OCatequista: http://ocatequista.com.br/archives/6379
    Daqui a 100 anos, algum cretino como esse professor Eder Fernandes dirá, citando algum padre qualquer possivelmente excomungado, que a Igreja defendia o aborto.

  5. Muito obrigado pelo relato, Bruno! Infelizmente não pude comparecer ao evento, mas pude ver bem como foi pelo que você descreveu. Assisti a palestra do Pe. Anderson no Youtube, genial. Parece que, apesar de tudo, o saldo foi positivo. Quanto aos dois últimos palestrantes, sim, é lamentável… Mas é evidente que não podemos esperar nenhuma conduta moralmente elevada de pérfidas mães que matam os próprios filhos ainda no ventre ou de seus cúmplices. Obrigado por ter ido, e obrigado por ter representado o que penso. Forte abraço!

    • Eu que agradeço pelo comentário, Andre.
      E que continue assim: quanto mais presentes nos fizermos, quanto mais a oposição ao discurso degradante, promíscuo e assassino fizermos, mais chances de ele minguar. E mais notoriedade e espaço a nossa voz terá, com menor ou nula necessidade de afronta e combate, como aliás, deve ser.

      Abç

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