Entrevista com Leonardo Giorno, integrante do novo DCE da PUC-Rio


Se é verdade que o pior que pode acontecer no ambiente acadêmico é o sufocamento da pluralidade de opiniões – e esse é um alerta insistente que escuto de meus amigos universitários – era de se esperar que em algum momento surgisse uma resistência. Hoje trago a breve entrevista que fiz com um dos integrantes da chapa vencedora da última eleição para o DCE da PUC-Rio. A julgar pela repercussão na rede social facebook que a vitória teve e, conhecendo o ambiente cultural e político recente da instituição, parece-me uma mudança há muito desejada e muito bem vinda.

O Legado d’O Andarilho: Nos fale sobre você: Quantos anos tem, qual o curso você faz na PUC e em qual período está?

leonardoLeonardo Giorno: Meu nome é Leonardo Giorno, tenho 22 anos e vou para o último período de Filosofia na PUC-Rio. Estou à frente da Ouvidoria, que faz parte da Diretoria de Transparência do DCE, eleito agora em novembro de 2014, criada para que haja uma maior clareza e lisura nas ações que tomamos, coisa que sentíamos falta da última gestão, que não prestava contas aos alunos.

OLA: Conte-nos como foi a disputa para o DCE, o que o motivou a entrar na chapa, quais as dificuldades e a receptividade dos alunos.

LG: A gestão passada do DCE estava já no poder há 6 anos. Era uma gestão de viés estritamente de esquerda e que muito pouco fazia pelos quase 13 mil alunos que a instituição possui. Por outro lado, se envolvia demasiadamente com a política partidária.

Nesse sentido, um grupo numeroso de alunos, descontentes com esse cenário, decidiu se unir em prol de eleger um DCE eficiente, que, para isso, precisaria ser acima de tudo apartidário, para dar conta de representar todos os estudantes, que pensam de modo diferente. Assim, criamos a chapa Muda DCE e aos poucos foram se somando mais e mais alunos que iam aderindo a esse movimento de mudança.

Diante da proximidade das eleições deste ano e a polarização nacional PSDB x PT, começaram a nos tachar de direita e nos acusar de querer promover na PUC um terceiro turno das eleições presidenciais, uma vez que a chapa da situação fazia campanha de modo categórico à presidente Dilma. Logicamente, pensaram, se fazemos oposição a um DCE que faz campanha para Dilma, logo somos de direita. Falácia que tentaram, mas não conseguiram empurrar goela abaixo dos alunos. Acontece que nossa chapa foi um movimento que conseguiu a adesão de alunos tanto do campo da esquerda quanto da direita, bem como os de centro (que são a maioria). Conseguimos a proeza de unir liberais, conservadores e socialistas. Tudo isso, em vista de uma causa maior: o bem da comunidade universitária. O resultado foi o esperado, uma disputa acirrada, mas uma vitória que muito significa para o período que estamos vivendo hoje no Brasil. A chapa Muda DCE foi eleita com maioria dos votos, principalmente dos alunos de cursos que historicamente nunca se envolveram em peso com as eleições, como o curso de engenharia. Isso revela que mesmo aquelas pessoas que antes não se preocupavam muito com política, agora estão se dando conta de que precisam participar.

OLA: Na sua opinião, que temas se mostram mais importantes e necessários de serem abordados, atualmente, no ambiente acadêmico? Por vezes, alguns católicos até se sentem constrangidos ou chocados com a recorrência de atividades de promoção de opiniões e costumes contrários à moral cristã nas faculdades…

LG: O que tem acontecido, hoje, no meio acadêmico, é algo completamente avesso ao espírito universitário. As universidades nasceram justamente para poder confrontar as diversas formas de saberes com o intuito de se chegar à Verdade, mas o que tem acontecido é o efeito contrário. No confronto de ideias, não se tem conseguido chegar um lugar comum. Diante desse problema,

o relativismo tem voltado com toda força, como nunca antes desde os sofistas. Isso é algo que não atinge somente os católicos na PUC – que como o nome já diz, é uma universidade católica – que veem sua fé ameaçada pela cultura do “depende do ponto de vista”, mas também outros grupos religiosos têm passado pela mesma situação. Eu, durante a campanha eleitoral, conversando com alunos, tive a oportunidade de conversar com um aluno judeu, que me disse o que tem passado ali dentro e de tantas coisas que é obrigado a ouvir. Um espírito antissemita tem tomado grande força. É válido lembrar que é da universidade onde nascem os pensamentos que modelam a sociedade, o que me preocupa muito, porque se são esses os pensamentos que estamos alimentando, não quero imaginar como será o dia de amanhã.

OLA: Por falar nisso, como você vê a relação entre o DCE, as coordenações da universidade e a arquidiocese do Rio? Qual a sua opinião sobre a influência ou interferência dos bispos no cenário da PUC-Rio?

LG: Queremos fomentar uma boa relação com a reitora, as vice-reitorias e os departamentos da PUC-Rio, coisa que já começamos a fazer. Nós acreditamos que o diálogo é o melhor caminho para resolver todos os problemas. Vamos procurar ao máximo evitar os confrontos a atritos, que só fazem dividir a comunidade universitária. Aqui no Rio de Janeiro precisamos dar graças a Deus pela administração que temos, que é feita ainda pelos jesuítas. A relação com o Cardeal Dom Orani também sempre foi a melhor possível, ele é uma pessoa muito solícita. Entretanto, nem tudo são flores. No debate eleitoral entre as chapas, um aluno que compunha a mesa comentou sobre a realidade da PUC-SP, em que lá os alunos podem escolher o reitor. Então, ouvi um padre jesuíta, que estava à minha frente, sussurrar para uma pessoa que estava ao seu lado: “é verdade, a PUC de São Paulo está muito mais na nossa frente”. Fico pensando, será que Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, era a favor dessa secularização?

OLA: A percepção hoje é de que o marxismo cultural tornou-se hegemônico nas universidades brasileiras. Você compartilha desta visão? Se sim, o que fazer para reverter esta influência?

10819811_984672378228848_1293762366_oLG: Não diria que chegamos a esse ponto na PUC-Rio. Lá, muitos professores buscam promover uma reflexão em que todas as partes têm espaço para falar. Isso é fundamental. Todavia, é possível perceber, sim, que alguns departamentos têm se fechado para uma análise que privilegia o materialismo histórico e dialético. E ai de quem quiser pensar diferente. No departamento de Teologia, por exemplo, há uma forte corrente seguidora da Teologia da Libertação. As Sagradas Escrituras são sempre interpretadas por eles como algo que é fruto meramente das mãos humanas. Ora, a teologia não se reduz a isso. Alguém precisa dizer para esses professores que eles podem se demitir do departamento, porque quem deve fazer isso é o antropólogo, o sociólogo, o historiador, o psicólogo etc. Não eles. Mas como eu disse, as pessoas têm despertado para o perigo que é a ditadura da opinião, em que só um lado tem voz.

Conseguimos a proeza de unir liberais, conservadores e socialistas. Tudo isso, em vista de uma causa maior: o bem da comunidade universitária.

OLA: O que podemos esperar dessa gestão mais conservadora do DCE, o que vocês planejam realizar?

LG: Penso que essa não seja uma gestão mais conservadora. Não obstante, vamos lutar por valores que acreditamos ser fundamentais, como a democracia. O novo DCE vai buscar levar adiante projetos que sejam de interesses de dentro da universidade e não de fora. Uma gestão proativa, plural e próxima aos alunos, que desalinhe o movimento estudantil do partidarismo, sem perder o debate político que passará a ser paritário. Irá articular uma maior representatividade dos alunos através da reestruturação do conselho de Centros Acadêmicos, que representa os alunos de cada curso. Dentre as inúmeras propostas, irá promover o empreendedorismo, de iniciativa do alunato, coisa ignorada pela última gestão, bem como olhará com maior atenção para a questão da acessibilidade para os deficientes físicos, campanhas de solidariedade e o apoio aos esportes.

Eu espero que esse movimento de mudança, que conquistamos na PUC-Rio, possa se espalhar por todas as universidades do Brasil.


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